15 de dezembro de 2020

DELÍCIAS DA CULINÁRIA POLONESA: BOLO ROMANO COM OVO - PIECZEŃ RZYMSKA Z JAJKIEM


Maurício Waldman


O Bolo Romano ou então, Rolo de Carne com Ovo (Pieczeń rzymska z jajkiem) é um típico prato polonês, que basicamente consiste numa massa de carne moída bem condimentada e assada juntamente com ovos cozidos embutidos no interior do “rolo” (foto). 



Note-se que para muitos devotos católicos em toda a Polônia, o Rolo de Carne com Ovo é acompanhamento indispensável para a celebração da Páscoa cristã.

Para além dos católicos, tradicionalmente os judeus poloneses apreciam - e muito - este prato, sendo que no caso, a carne utilizada é evidentemente, em vista do código de pureza
kosher para a alimentação, exclusivamente a de boi.

Quanto à denominação “romano”, que de pronto chama a atenção de todos que tomam conhecimento do quitute, existem várias teorias. 


Contudo, recorde-se que a Polônia é um país essencialmente católico e que Roma reporta, em muitos contextos, à Igreja Latina com sede no Vaticano e sob comando do Papa, e neste sentido, o uso da terminologia “Romano” parece muito pertinente em especial por ser um prato vinculado à uma celebração dos católicos.


No mais, confira-se que o ovo, nas culturas eslavas pré-cristãs, era simbolicamente conectado à noção de fertilidade, do ciclo da vida e assim como da ressureição, o que pelo mínimo, dialoga com sentidos mais amplos atribuídos à Páscoa.

 

Esteticamente, a imagem visual do prato é magnífica, com os círculos concêntricos de amarelo e branco dos ovos no interior do bolo de carne e pequenos destaques laranja da cenoura que irrompem no meio do rolo (“wspaniale”: maravilhoso em polonês). 


O ovo adiciona um belo impulso de cor ao bolo de carne, no que o salpicado da cenoura também contribui para os olhos ficarem em festa. No final das contas, dado que comemos primeiro com os olhos, este aspecto não tem como ser negligenciado.

 

Atente-se que a massa de carne moída em muitas partes da Polônia, é um mix de carne de porco com carne de boi, podendo também incluir nacos de carne de frango, todas evidentemente moídas. 


Outrossim, existem diversas variações regionais deste prato, tanto no referente ao substantivo principal do Bolo Romano (isto é, a massa de carne moída), assim como na adjetivação (os temperos), proporções que são tanto quantitativas, quanto qualitativas.

 

Na Polônia, este prato é servido com purê de batatas. Neste pormenor, recorde-se que na Polônia, utiliza-se o creme de leite como excipiente e também, que no preparo os poloneses não usam margarina, somente manteiga (a bem dizer, margarina é trash food, item que ao menos no meu entendimento, é carente de qualificação culinária).

 

Gastronomicamente, o Pieczeń rzymska z jajkiem é delicioso e não requer demasiada expertise em pilotar fogão (ou melhor, no caso, o forno). Este prato popular polonês, para além de festividades religiosas, é adequado para almoços e jantares durante a semana. 


O conselho a ser levado em consideração, é fazer mais do que em princípio será necessário. Isto porque todos irão querer mais, evitando-se com isso, as disputas com as sobras.    

 

Não esquecer que na eventualidade de sobrar qualquer pedacinho do quitute, que estes podem voltar à cena através do micro-ondas ou então, utilizados como recheio de sanduíche (neste caso, rege o pão com azeite de oliva ou mostarda, fica demais).


Verdadeiramente, o prato agrada a todos os paladares e então, o que segue são os ingredientes e o modo de preparo, na versão que conheço, é claro, do Bolo Romano com Ovo, receita aqui configurada para quatro comensais. 


No mais, confirmando o que já destaquei, a massa de carne moída e os temperos variarão muitíssimo de receita para receita. O que era feito na minha casa é o modo de cocção típico dos judeus da região de Kielce (Kongress Polska), grupo do qual sou descendente.


 

INGREDIENTES


1,100 kg de carne bovina moída: utilizo patinho e peço para o açougueiro moer duas vezes com a pele, pois um pouco de gordura vai contribuir para deixar o assado no ponto (Caso queira fazer um mix de carne moída, a dica é utilizar uma mistura 80:20 de carne magra com carne mais gordurosa);

 



6 ovos cozidos e descascados;

 

2 pãezinhos secos para ralar (esta proporção corresponde a 20% do volume total da receita, métrica que adoto para o Rolo polonês);

 

2 ovos crus batidos;

 

4 dentes de alho cortado miudinho;

 

Duas cenouras médias, cortadas em quadradinhos bem pequenininhos;

 

Três colheres de sopa de manteiga (sem sal);

 

1 cebola e meia (dar preferência à cebola roxa), cortada em cubinhos pequenos;

 

Um bom punhado de manjericão fresco (tipo duas mãos, contando com os galhinhos);

 

Salsinha a gosto (uma dica é adicionar de modo a deixá-las visíveis na mistura);

 

Quatro colheres de chá de sal (ou a gosto);

 

Quatro colheres de chá de pimenta preta (ou a gosto);

 

Duas colheres de chá bem cheinhas de páprica picante;

 

Cinco folhas de louro fresco;

 

Azeite para besuntar o Rolo no final do preparo.

 


Ingredientes adicionais, coadjuvantes ou alternativos:

 

No lugar do pão seco ralado (ou farinha de rosca), muitas receitas indicam a utilização de um pãozinho fresco ou passado (ou dois, caso considere interessante), embebido em leite. 


Pessoalmente não faço desta forma. Prefiro utilizar farinha de rosca pois deste modo, conseguimos dar firmeza à carne moída e manter todos os sucos da mistura.

 

Quem desejar, pode adicionar à mistura um vidrinho de cogumelo em conserva (deixe o produto um pouco na água), cortando os cogumelos em quatro;

 

Tiras de bacon fininhas, para serem colocadas no topo do Rolo para derreterem no forno (Considero “over”, pois fica muito gorduroso); Há também quem goste de colocar mostarda como tempero (duas colheres de sopa). Pessoalmente não gosto pois deste modo, no meu entendimento, o prato fica muito adjetivado;

 

Pepino, aspargo e/ou rabanete para enfeitar ao tirar do forno (pessoalmente não uso).


 

PREPARAÇÃO




Ligue o forno para deixá-lo pré-aquecido.

 

Preliminarmente, coloque a carne moída numa gamela e rale os dois pãezinhos.


Refogue a cebola e a cenoura na manteiga, mexendo sempre, até a cebola ficar translúcida, acrescente o alho e cozinhe por mais 2 minutos.

 

Deixe o refogado esfriar e adicione tudo na gamela com toda a manteiga que ficou na frigideira (não é para desperdiçar nada).

 

Coloque todos os temperos listados junto com os dois ovos batidos e misture delicadamente sem misturar demais. Não pressione a mistura: seja gentil!

 

Unte uma forma com manteiga e coloque suavemente entre 40% e metade da mistura na forma, modelando uma base ablonga.

 

(Aliás, você também pode assar o Rolo numa assadeira de pão, tipo 8 x 4, mas neste caso, creio que o bom mesmo é a forma aberta, tanto para o apuro do gosto, quanto por questões estéticas, que também contam).




Adicione os ovos cozidos à esta base, dispondo-os de ponta a ponta, e então, cubra-os delicadamente com o restante da mistura de carne, sem comprimir muito.

 

Agora, é momento de você “acariciar/alisar” o Rolo com o azeite, besuntando as frestas devagarinho e formando deste modo, uma capinha protetora.

 

Coloque o bolo de carne no forno, reduza a temperatura interna para 180 °C e asse por 70/80 minutos, conferindo sempre o andamento do assado (o comportamento dos fornos muda muito de um tipo de fogão para outro).

 

Lembre-se que o essencial é não deixar o Rolo polonês ressecar. A umidade da carne é essencial para acentuar o gosto;

 

Deixe descansar por pelo menos 10 minutos antes de fatiar.

 

O que vem depois é imperdível! 

 

MAURÍCIO WALDMAN
Jornalista - MTb 79.183-SP
Contato: mw@mw.pro.br

Maurício Waldman Textos masterizados: http://mwtextos.com.br/


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REFERÊNCIAS

https://polishhousewife.com/polish-meatloaf-with-egg-pieczen-rzymska-z-jajkiem/

https://aniagotuje.pl/przepis/pieczen-rzymska-z-jajkiem

https://aniagotuje.pl/przepis/pieczen-rzymska-z-jajkiem

https://www.mojkulinarnypamietnik.pl/2019/04/pieczen-rzymska-jajkiem-w-ciescie.html

 



 

 

 

5 de setembro de 2020

O CARRO VOADOR MOVIDO A ÁGUA ESTÁ NO AR

 

Parece ficção científica, mas não é. O engenheiro israelense Rafi Yoeli, CEO da Urban Aeronautics Ltd (sediada em Yavne, Israel), apresentou o protótipo funcional do electrical Vertical Take Off and Landing (eVTOL) ou carro voador urbano, que em poucos meses, estará à venda no mercado global de veículos. 

Veja o linK:



O eVTOL de Israel é POLUIÇÃO ZERO:  funciona com base na tecnologia exponencial das células de combustível, baseadas na obtenção de hidrogênio da água. Dito genericamente: isto significa que o novo automóvel poder ser abastecido a partir de uma torneira doméstica. Certamente, esta é uma ótima notícia para um mundo assediado pelas mudanças climáticas e com a carbonização da atmosfera.

O eVTOL de Rafi Yoeli Israel está programado para grande autonomia de voo, é silencioso e ideal para grandes metrópoles e serviços de descolamento rápido (como ambulâncias), sendo que o engenheiro já antecipa que o seu eVTOL não é de modo algum um brinquedinho de science fiction: “nosso objetivo é oferecer ao mercado um produto vendável. Sem  viabilidade econômica, ciência não existe”.

O eVTOL de Israel é também visto como uma vitória do famoso Instituto TECHNION de Haifa, instituição que até 2019, listava sem qualquer alarde, três Prêmio Nobel e outros quatro que desenvolveram parcialmente pesquisas neste instituto científico.

 Israel tem 7.400.000 habitantes (pouco mais que o Maranhão), 21.000 km² (cerca de 2/3 de Alagoas) e enfrenta tensões geopolíticas desde seu surgimento em 1949. Do ponto de vista natural, o país tem pouquíssima água, não tem florestas ou reservas de minérios de monta.

Ainda assim tem obtido uma longa lista de fantásticas realizações e vitórias no campo científico.

Certo está, o eVTOL é uma delas. 

 

 

MAURÍCIO WALDMAN

Jornalista - MTb 79.183-SP

Contato: mw@mw.pro.br

 

Maurício Waldman Textos masterizados: http://mwtextos.com.br/

 

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MORE INFO:

Urban Aeronautics CEO has designed a made-in-Israel flying carhttps://www.jpost.com/jpost-tech/urban-aeronautics-ceo-has-designed-a-made-in-israel-flying-car-641157


1 de outubro de 2019

COMENDO TOMATE COM A ÁGUA DOS OUTROS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 4



Desde finais do Século XX, a partir dos estudos relacionados à rarefação da água, difundiram-se análises baseadas em métricas do consumo de água das atividades econômicas.

Num cenário pespontado pelas ansiedades despertadas pela falta d’água, a noção da importância da volumetria que cabe aos produtos, determinou que o conceito de água incorporada ou virtual, passasse a frequentar os manuais e os prontuários do comércio exterior.

Como podemos deduzir do nome dado ao conceito, trata-se da proporção de água doce que cada mercadoria solicita, e que não obstante ser indispensável para obter o produto final, ninguém a rigor, vê a menor fração do líquido quando compra pão, carne, uvas ou, como no caso deste texto, tomates. Daí justificadamente, o uso do termo virtual.

No marco colocado pelo comércio internacional, que como tudo o que se refere à ordem global é manifestadamente desigual, impõe-se uma conclusão: a de que determinados países, estejam ou não calçados em estoques hídricos, despontam como provedores de água na forma de bens primários como grãos, frutas, minérios e proteína animal.

Neste sentido, entendendo-se que na economia global os recursos são extraídos em um país, transformados em bens em outro e consumidos num terceiro, os fluxos de água virtual possuem enorme relevância, pois revelam o quanto as dessimetrias do poder econômico agem para beneficiar poucos países em detrimento dos demais, que arcam com os custos ambientais da produção de bens.

Materializando uma geografia do poder, esta assertiva cabe como uma luva para os países europeus, que como um todo, asseguram 40% da sua pegada hídrica, isto é, da água doce que consomem, a partir de montantes hídricos externalizados fora das suas fronteiras.

Mas, note-se que as nações europeias mais poderosas, tais como Itália, Alemanha e Inglaterra, possuem pegadas hídricas externas bem maiores, variando entre 60% a 95% do consumo total. Isto é, absorvem água embutida nas mercadorias oriundas de países externos de onde ocorre o consumo final, implicando numa portentosa economia de recursos hídricos.

Neste prisma, desponta em especial a economia alemã, cujo poderio é manifesto. Potência econômica de primeira linha, a Alemanha tem a quarta maior economia do Planeta em termos de PIB nominal, sendo líder global em diversos setores fabris e tecnológicos e terceiro maior exportador e importador mundial de mercadorias.

O mercado alemão é destino preferencial de commodities como petróleo e gás, madeiras, minérios e itens agrícolas como a soja, café, painço, óleos vegetais, grãos, borracha, algodão, cacau, azeite e açúcar, que esbanjam eloquente água virtual, importados, no geral, de nações periféricas.

Note-se que a Alemanha, em paralelo ao movimentado comércio com os países do Terceiro Mundo, é ativo parceiro comercial das nações europeias vizinhas, que por motivos logísticos, tais como frete e a perecibilidade de determinados produtos, são fornecedores da mesa dos alemães, fato que também recoloca na pauta, o comércio de água virtual.

Tome-se, por exemplo, o elucidativo caso da pegada hídrica alemã no tocante ao consumo de tomates. No período 1996-2005, a produção alemã do produto foi de 47.000 toneladas por ano, com um índice médio 36 m³ de água para produzir cada tonelada do produto.

Todavia, neste mesmo lapso de tempo, os alemães, para saciar sua predileção pelo apetitoso fruto vermelhinho, importaram 667.000 toneladas/ano de tomates, pelo que, na somatória média dos tomates importados, o mercado consumidor alemão dispôs de 57 m³ de água para cada tonelada do fruto.

Logo, numa contabilidade sumária, a importação de tomate gerou uma poupança de 38.019.000 de m³ do líquido, economizados do capital hídrico alemão. Para ofertar maior inteligibilidade ao montante de 38.019.000 de m³, que tão só informa a pegada hídrica dos tomates, este volume seria suficiente para:

·        Saciar a sede dos novaiorquinos durante quase cinco anos;

·        Dessedentar todos os portugueses durante quase três anos;

·        Garantir água de beber para todos os berlinenses durante onze anos.

Portanto, é água para dar inveja às cataratas do Niagara. Daí que o comércio de água virtual é uma importante ferramenta para avaliarmos a extensividade do império da sede, com o qual o mercado mundial mantém insofismável relação siamesa.

Indo direto ao ponto, a sede possui diversas fisionomias. Está presente na torneira seca e nas filas que se formam em todo o mundo em torno dos caminhões-pipa.
E embora como foi dito, não seja evidente, também está representada no simpático e suculento tomatinho que todos gostam de levar à boca. Principalmente quando a boca em questão, é a dos outros.



SAIBA MAIS SOBRE A DESIGUALDADE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:

Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF:                       
http://www.mw.pro.br/mw/agua_escassez_e_conflitos_no_imperio_da_sede.pdf


Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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20 de setembro de 2019

TIBETE: AS COBIÇADAS ÁGUAS DO TETO DO MUNDO - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 3




No Século XXI, o alastramento do império da sede tem na garrafa de água mineral engarrafada, no gado esquálido e nos caminhões-pipa rodeados de sedentos, imagens aceitas sem pestanejar como expressões emblemáticas da rarefação das águas doces.

Mas, dado que nada é real fora da nossa percepção do real, a ordem global está nos dias de hoje pespontada por conflitos entre povos, regiões e países pela posse do líquido vital, fato nem sempre evidente aos olhos da opinião pública.

Um destes litígios reporta ao Tibete, país antigo que durante séculos, manteve-se em relativo isolamento, governado desde o Século XIV por Dalai-Lamas, reis-sacerdotes tidos como reencarnações de Gendun Drup, o primeiro destes monarcas, entronizado com apoio do sacerdócio budista.

A administração do país, sediada na cidade de Lhasa, tinha no Palácio do Potala, justamente a imagem que abre este artigo ( < https://www.lonelyplanet.com/china/lhasa/attractions/potala-palace/a/poi-sig/435266/356124 >), o cerne da ordem social, política e religiosa, voltada para manter o insulamento do Tibete.

A geografia pareceu conspirar em favor deste objetivo, a começar pelas soberbas montanhas do Himalaia, onde encontramos, na fronteira com o Nepal, o Pico do Everest (8.848 metros), o ponto mais alto da Terra. Alastrando-se pelo mais alto e vasto planalto da Terra (o Plateau Tibetano), o Tibete é por esta exata razão, conhecido como “Telhado”, ou “Teto do Mundo”.

Ao mesmo tempo, tal singularidade topográfica explica a relevância hidrológica do país, berço de extensos rios alimentados pelo degelo das cordilheiras do planalto. Assim, o Tibete é um autêntico manancial de águas para vasta extensão da Ásia (Vide Mapa).

Geografia Hídrica do Tibete
(Fonte: < https://www.meltdownintibet.com/f_maps.htm >. Acesso: 26-12-2018)

As relações do Tibete com seu poderoso vizinho, a China, oscilaram tremendamente ao longo do tempo, marcada pela resistência do país em ser anexado pelos chineses. Em 1950, tropas da República Popular da China (RPC), entraram em Lhasa, e 15 anos após, Pequim repaginou administrativamente o país enquanto região autônoma no interior da organização político-territorial da China.

Este status é objeto de várias polêmicas, em especial pelo centralismo com que a RPC exerce o mando no Tibete, tendo por resposta, movimentos pela independência tibetana, cuja primeira exigência, é a retirada incondicional da China do planalto.

Por sua vez, a RPC repudia o que classifica como tentativa de solapar a integridade territorial do país, como também reprime as mobilizações independentistas. A razão da intransigência de Pequim justifica-se, dentre outros pontos, por motivações de fundo hidrológico.

Como é possível conferir no Mapa, o Tibete é um pivot hidrológico de primeira linha para grande parte da Ásia. A posse do imponente planalto garante à China uma poderosa fortaleza natural que protege os centros vitais do país, que mais ainda, estando a cavaleiro dos rios que fluem a jusante, garante aos chineses influente papel geopolítico em vasta parte do continente.

A partir do planalto, nascem todos os grandes rios da Ásia Meridional e do Extremo Oriente: Brahmaputra, Ganges, Irrawadi, Mekong, Salueen, Yang-Tsé-Kiang (rio Amarelo), Hoang-Ho (rio Azul), Hindus e o Sutlej. Logo, a China literalmente controla uma fatoração hídrica indissociável da sua projeção na esfera da política continental e global.

Certo é que nada disto depõe em contrário ao fervor nacional tibetano, que a despeito dos vínculos históricos mantidos com a China, contesta o que entende como usurpação do direito de autodeterminação.

Porém, recordemos as considerações do geógrafo francês Claude Raffestin, que em Por Uma Geografia do Poder, numa explicação direta e objetiva, recorda que sendo a água um líquido vital e insubstituível, qualquer forma de dominação exercida a partir dos provimentos do líquido, necessariamente articula arquiteturas de poder propensas a se imiscuir em todos os interstícios do edifício político.

Isto é: a água é no caso do Tibete, assim como em muitos outros cenários da ordem global, vetor que explica a exacerbação das disputas e do hegemonismo político. Logo, como advertem os especialistas em geopolítica, a China dificilmente, ou mesmo jamais, abrirá mão do Tibete.

Torcemos para que a nação tibetana possa estar ao comando do seu próprio destino. Contudo, indo direto ao ponto, os obstáculos, senão intransponíveis, são, pelo mínimo, acintosamente espinhosos.

SAIBA MAIS SOBRE A CRISE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE
Lançamento Editora Kotev (2019, KOTEV©), 
ISBN 1230003255148, 506.193 Caracteres e 65 Figuras. Acesso Livre na Internet em Formato PDF:


Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:


Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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12 de setembro de 2019

ANCESTRAL GAY, TODO MUNDO TEM



A sala estava repleta quando o autor deste texto desenvolvia em 2008, uma das aulas do curso de capacitação para professores da rede municipal de ensino de Poços de Caldas (MG).

Abordando o tema da diversidade humana, explanava quão frágeis são as prédicas firmadas em “raças” - que não dizer de grupos e raças “puras” -, uma concepção estranha, que a despeito da ausência completa de cientificidade, prossegue na colonização do imaginário social.

Comentando esta noção, reportei a uma sagaz ponderação do geógrafo galês Emrys Jones, que se distinguiu por argumentações apoiadas em bases de dados objetivas.

A avaliação inicial de Jones sobre a raça humana, por sinal, a única que de fato existe, repete o que é óbvio nas ciências sociais. Detalhes como cor da pele, tipo de cabelo, altura e formato dos olhos, não são determinantes para definir um “tronco racial” e tampouco, supostas virtudes ou imperfeições inatas.

Jones também reforçava este argumento recordando o fato de que devido ao longo histórico de miscigenações entre povos e etnias, a prédica das “raças puras” se convertia num axioma totalmente desprovido de sentido.

Numa dedução interessante, o geógrafo inovou ao recordar que retrocedendo pela árvore genealógica, os antepassados de um indivíduo se multiplicam em progressão geométrica.

Assim sendo, se um contemporâneo nosso puder reconstruir sua árvore genealógica até oito gerações precedentes, isto significa que sua constituição genética e, por conseguinte seu aspecto físico, decorre de 510 antepassados que viveram por volta do ano 1700.

De quantos antepassados então não descenderíamos, caso a linha do tempo fosse recuada em mais mil ou dez mil anos? Seriam dezenas de milhares de ancestrais! Nesta escala, qualquer um de nós tem de tudo na genealogia: africanos, esquimós, indianos, judeus, irlandeses e por aí vai.

Apurando o raciocínio, registrei que além da diversidade étnica e cultural, pessoas diferentes em termos de índole, poder social e personalidade, constam nos nossos prontuários genéticos: santos e ladrões, mendigos e ricaços, honestos e malfeitores.

Ademais, afirmei que este elenco não estaria completo caso omitíssemos as opções sexuais. Com efeito, na nossa ancestralidade, lado a lado com ampla tipologia de multiplicidades, poderíamos encontrar pessoas “calminhas” e as ditas puladoras “de cerca”, e porque não, o que coloquialmente foi consagrado como sendo gays.

Foi neste momento que um dos participantes da aula, indisposto com o comentário, interrompeu-me de um modo um tanto deselegante: “Professor, isto é impossível! Pai e mãe são de sexos opostos”.

“Não exatamente”, respondi. Recordei-lhe que pode acontecer que um gay fique curioso para “experimentar” o sexo oposto. Portanto, é perfeitamente possível que sejam pais e mães.

Na sequencia, fui mais claro ainda e disse: “Pois é, pode ser que num momento de curiosidade é que exatamente um dos seus ancestrais surgiu”. E aí, em meio a gargalhadas gerais da sala, o debate finalizou.

Certamente, o debate sobre o homossexualismo é profundo e polêmico, e até demais para o gosto deste autor. Prova disso, recentemente o prefeito Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, cidade caótica, mergulhada em seríssimos problemas, se dispôs a abrir brecha na agenda oficial para acompanhar o recolhimento de uma HQ com beijo gay na Bienal do Livro.

Este fato, lamentável por uma vez mais confirmar que no Brasil, existem “leis que pegam” e “leis que não pegam”, acontecendo poucas semanas após o STF ter criminalizado a homofobia, demonstra também o abismo de compreensão de uma temática, que não permitiria tamanhas reações de inconformismo.

O homossexualismo é registrado desde que este mundo é mundo, variando tão só na sua aceitação sociocultural por parte de diferentes comunidades ao longo do tempo.

Aparte detalhamentos pontuais, o que a lógica do concreto impõe é que temos vizinhos, colegas de trabalho, empresários e políticos gays. No mais, que no passado, sabe-se lá quem ao longo do tempo, tivemos ancestrais gays, que assim eram porque assim vieram ao mundo. Simples assim.

Embora para alguns o dado seja perturbador, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Goste-se ou não da ideia, ancestral gay, todo mundo teve. E também, goste-se ou não disso, todos seremos, cedo ou tarde, ancestrais de gays.


Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mailmw@mw.pro.br


ARTIGOS RECENTES POSTADOS EM FOCO DE FATO:


A TRAGÉDIA DAS ÁGUAS ATORMENTADAS - ARTIGO DA SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 2: http://focodefato.blogspot.com/2019/09/a-tragedia-das-aguas-atormentadas.html


ÁGUAS MINERAIS IMPURAS - ARTIGO DA SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 1: http://focodefato.blogspot.com/2019/08/aguas-minerais-impuras-serie-imperio-da.html


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