segunda-feira, 17 de junho de 2019

ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE – EBOOK DE ACESSO LIVRE NA INTERNET



ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE – EBOOK DE ACESSO LIVRE NA INTERNET

Fato indiscutível, a água tornou-se assunto presente no dia a dia das pessoas, grupos e nações. Poderíamos arrematar: um tema crucial, pois o que está em jogo é um líquido essencial às comunidades humanas e a todas as formas de vida. A gravidade do problema é flagrante. Basta consultar as manchetes e os noticiosos da Internet, rádio e televisão.

O que expressamente se anuncia é que a sede deixou de ser uma questão das regiões carentes de água para apresentar-se na forma de um impasse que ameaça o mundo moderno nos seus polos mais icônicos: metrópoles, centros produtivos, redes de distribuição e de consumo.

Portanto, a escassez do líquido tem alimentado prodigiosa coleção de pronunciamentos, artigos, livros e propostas. Porém, quase sempre as narrativas se detêm sobre os efeitos da crise hídrica, sendo que muito pouco é comentado sobre as origens do problema.

Neste sentido, Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede é uma obra que tem por objetivo discutir as diferentes perspectivas associadas à água, pensando caminhos que permitam viabilizar um acesso amplo, justo e equitativo ao precioso líquido.

Por esta razão, Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede pontua temáticas como os aspectos relacionados com a distribuição da água no meio natural e a importância dos fatores sociais, culturais, históricos, geográficos, políticos e econômicos no tocante à escassez do líquido, enfoques pautados e discutidos ao longo de todo o livro.

Do mesmo modo, Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede contempla o debate dos contextos que tornaram a água um elemento impartível da balança de poder em todos os níveis e segmentos, relacionada que está às disputas que opõem povos, classes e grupos de interesse.

Em comum, estas pendências explicitam uma crise hídrica em cujo seio, diferentes atores se empenham em apossar-se de um líquido alçado à posição de fator estratégico, de vida e morte para as sociedades, quando na realidade, o que está em jogo é uma lógica ainda mais essencial: a garantia de um futuro viável para a Humanidade como um todo.

Assim, Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede expõe a variada e complexa rede de implicações que demarcam o acesso às águas doces, trazendo novas informações e noções compromissadas com a preservação do líquido, acompanhadas da perspectiva ambiental e da preocupação para com o futuro próximo da Humanidade.

Sabe-se que uma reconhecida propriedade da água é o fato de ultrapassar os obstáculos postados no seu caminho, fluindo pelos desvãos do terreno e abrindo as portas para novas trajetórias. Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede adota e reforça este entendimento, que no caso, exige da sociedade moderna idêntica determinação e vontade.

Esta obra, de autoria de Maurício Waldman, tem origem em diversas atuações do autor em diferentes momentos de sua trajetória intelectual, como professor, autor de papers e textos para a imprensa, assim como cursos e conferências, a partir do início dos anos 2000. Doutor em Geografia (USP) e Pós-Doutor em Relações Internacionais (USP), campos disciplinares nos quais o autor pesquisou profundamente a temática dos recursos hídricos, Maurício Waldman nos apresenta uma obra lapidar, de leitura obrigatória por todos os interessados nos destinos das águas doces.

ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE - ACESSO NA INTERNET:
ISBN 1230003255148 - EDITORA KOTEV (KOTEV©), 506.193 CARACTERES E 65 FIGURAS (21,67 MB).












quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

AS TORRES GÊMEAS DE BRASÍLIA



Em dado momento senti-me instado a escrever sobre o Congresso Nacional, juridica e institucionalmente a Casa do Povo por excelência. No mais porque esta instituição tem caído literalmente na boca do povo.

Para completar, a Internet e o Facebook exibem com imensa prodigalidade mensagens e banners com foco no Congresso. E cumpriria dizer, com mensagens que digamos assim, expressam certa fúria e indignação.

Em especial, chamou-me a atenção inúmeras postagens fazendo analogia direta às Twin Towers de Nova York. No lugar dos notáveis edifícios destruídos para sempre, lá estão as Torrês Gêmeas de Brasília, fumegando ou prestes a tal.

Deste modo eis que é possível apreciar a fúria mencionada devidamente formatada num cenário imagético condizente ao que se augura repetir no Planalto Central em termos do 11 de Setembro de 2001, dia em que asseclas do terrorrista Bin laden destruíram o imponente marco novaiorquino das Twin Towers para sempre.

Com o intuito de decifrar o que sustenta o subtexto das postagens e dos banners, decidi então discutir as motivações e implicações destas mensagens num artigo de acesso público, iniciando, é claro, com apontamentos relacionados ao 11 de Setembro de 2000. 

Como se sabe, neste dia um ousado plano esboçado por Osama Bin Laden, chefe supremo da organização radical islâmica Al-Qaeda, levou a cabo três impressionantes ataques em solo norte-americano, utilizando como arma aviões civis sequestrados.

Desde o bombardeio japonês da base naval de Pearl Harbor, no Havaí, quando então os Estados Unidos, praticamente de uma hora para outra, foram obrigados a perceber que não eram invulneráveis, nunca acontecera agressão tão direta no território dos EUA. E ainda por cima, bem no coração da poderosa potência mundial.


Na sua apoteose mais midiática, dois aviões sequestrados pelos ativistas da Al-Qaeda foram arremessados contra as Twin Towers - as Torres Gêmeas - do World Trade Center (WTC), em Nova York. Totalmente abaladas pelo choque, as Torres Gêmeas entraram estrepitosamente em colapso, ruindo às vistas de milhões de espectadores. Tudo praticamente on line (FIGURA 1)


FIGURA 1: Momentos que antecederam o arremesso de avião sequestrado na segunda das Twin Towers no 11 de Setembro (Foto: < https://www.emaze.com/@ALZZOLRZ/Presentation-Namehttps://www.emaze.com/@ALZZOLRZ/Presentation-Name >).


Neste ínterim, em Washington, o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, era também fulminado por um comando suicida da Al-Qaeda e a Casa Branca, o terceiro alvo da Al-Qaeda, por pouco deixou de ser riscada do mapa.

Isto porque a reação dos passageiros do avião sequestrado impediu a destruição do edifício presidencial norte-americano. Porém, provocando a queda da aeronave e a morte de todos que estavam a bordo, tanto dos passageiros quanto os extremistas da Al-Qaeda.

O impacto “antropo-lógico” dos ataques de 11 de Setembro foi tremendo. A imagem das Torres Gêmeas fumegando e ardendo em chamas, para depois desabarem de um modo que nem Hollywood seria capaz de conceber, tornou-se a representação mais acabada do potencial destrutivo do terrorismo, assim como da dificuldade dos modernos sistemas de defesa em rastrearem e de reagir diante do inusitado.

Com efeito, o êxito de um ato terrorista - qualquer que seja -, enquanto violência qualitativa tem uma eficiência calcada em estratégias de ação pontual. Os atentados concentram-se em pontos circunscritos no tempo e no espaço, com ataques impecavelmente cirúrgicos, apanhando de surpresa os sistemas de inteligência. Pior, são praticados por indivíduos ou grupos que transitam incognitamente pela massa da população de um país (Nota 1).

Há igualmente um componente espetacular nos atentados: miram objetos espaciais icônicos, quase sempre localizados nas capitais e à luz do dia, permitindo que sejam intensamente noticiados, exibidos na TV, filmados e fotografados por celulares, postados nas redes sociais ou mesmo acompanhados in situ por milhões de pessoas.

A isto se soma uma inoculação do medo. Esta key-word é implícita em ações que paralisam a capacidade reativa do establishment, e ao mesmo tempo, impactam de modo cabal a opinião pública dos grandes centros urbanos.

Nesta lógica, os ataques de 11 de Setembro, em razão do ineditismo, terminaram assimilados através da percepção informacional - independentemente do repúdio ou não ao evento -, como atos capazes de abalar o poder estabelecido, nexo que subliminarmente traduz as contradições e ambiguidades que perpassam pelo afazer político da Modernidade, suas instituições e modus operandi.

Pois então, eis que esta percepção modelar, assimilada por amplo rol de peças de crítica política, adotando amiúde as icônicas Twin Towers como eixo de significação, foi midiaticamente entronizado pelo imaginário social global, ajustando-se a diversas realidades, inclusive a brasileira.

É o que pode ser constatado nas próprias páginas da Internet no Brasil. Figurações com base nas Torres Gêmeas fazem presença nos materiais postados no Facebook. Em especial desde 2013, ano em que os protestos populares contrários à condução política e econômica do país encorparam mobilizações sem precedentes em toda a história urbana moderna do Brasil.

Uma das postagens, absolutamente representativa, coletada pelo autor deste artigo, reclama a atenção. É a que exibe um avião cujo alvo é a conhecida estrutura do Congresso Nacional em Brasília, obra de Oscar Niemeyer, com as duas torres situadas entre as meias-luas das casas do Congresso e do Senado repetindo o papel de alvo das investidas dos comandos da Al-Qaeda aos 11 de Setembro (Nota 2).

A montagem, uma clara analogia cinemática com as Twin Towers, é portadora, junto ao campo perceptivo político brasileiro, de mensagem claríssima: trata-se de ação visando destruir de modo inapelável um objeto espacial identificado com o funcionamento do poder legislativo, no caso, adereçado de uma evocação onírica: “Sonho de Brasileiro” (FIGURA 2).

FIGURA 2: Montagem “clone” do 11 de Setembro no Brasil que circulou ad nauseam Facebook durante as jornadas de manifestações do ano de 2013 na Internet brasileira.

Como não poderia deixar de ser, este banner provocou reações intempestivas nos parlamentares brasileiros, pouco acostumados a serem questionados publicamente. Mexendo na honra dos nobres deputados, foi uma das que animaram seguidas investidas de amordaçar a Internet.

Imagem polêmica num país onde as instituições se não são aceitas como plenamente filiadas a um ideal republicano são ao menos temidas, suscitaria, pois, uma reflexão sobre os sentidos inseridos na imagem. No final das contas, quando uma contradição é agraciada de expressão, se torna possível trocar a incompreensão pela explicação.

Nesta perspectiva, recordemos as ponderações do cientista político alemão Joachim Hirsch (Nota 3). 

Pouco citado no Brasil (mesmo porque a universidade praticamente o desconhece), para Hirsch, no mundo contemporâneo a existência da ordem política, e por extensão do aparato estatal, está empapado de litígios conotados por contraposições atadas aos humores da economia, reivindicações sociais e demandas dos cidadãos, mormente dos menos favorecidos.

Disto se coloca que a máquina estatal teria por meta, ao menos em tese, prestar-se a uma compatibilização propiciadora de um mínimo de equilíbrio, fomentando assim a legitimidade do sistema como um todo.

Contudo esta missão colocada ao Estado moderno tem sido marcada no Brasil por um sofrível desempenho das instituições políticas. O que a história brasileira registra é a perpetuação de um aparato estatal ancorado em fragilidades estruturais, ditadas por acentuadas e ininterruptas disritmias sociais, políticas e econômicas.

Nunca enfrentadas ou equacionadas, estas influenciam, corroem e questionam em caráter permanente a frágil e gelatinosa representatividade do aparato estatal, algo que desde a independência jamais se tornou efetiva.

Como assegurou o olhar penetrante do geógrafo Milton Santos, o Estado brasileiro tem por tarefa precípua um papel mistificador, propagador, ou mesmo gerador de uma ideologia de modernização, de paz social e de falsas esperanças, fabulação que nem de longe é capaz ou se mostra disposto a transferir para o mundo real. Poderíamos arrematar, sequer minimamente (Nota 4).

Saliente-se de pronto que os dois autores calçam contestações aos posts da Internet, particularmente que Brasília pudesse estar na agenda dos delitos perpretados por Bin Laden e seus asseclas.

Assim, contrariando postagens reportando às duas torres de Brasília vulgarizadas através do Facebook, ambas materializam referências que no plano da materialidade social, não possuem qualquer conectividade com as Twin Towers. Logo, os apelos que veiculam são carentes de capilaridade com a realidade concreta (FIGURA 3)

FIGURA 3: Post explicitando analogia visual do edifício do Congresso com as Torres Gêmeas, acompanhada de apelo a Osama Bin Laden.

Indo direto ao ponto, primeiramente tem-se que o Brasil dispõe de escassa projeção no cenário econômico internacional. Convenhamos, o país não é um centro decisório mundial. E como que selando tal condição, as sucessivas políticas econômicas encetadas no Brasil, notadamente na Era Lula & Dilma Rousseff, pavimentaram o caminho para a grande crise que passou a ensombrar o cotidiano de ampla maioria dos brasileiros.

Na prática, desde os anos 2000 o Brasil despontou como uma “economia baleia”: de grande volume, porém lerda e com baixa produtividade, sufocada pelo peso de uma incompetente ingerência estatal e com desprezível interação com uma ordem global composta não por cetáceos, mas por ágeis tubarões tecnificados.

Cada vez mais dependente do mercado de commodities da agricultura, da pecuária e da mineração, o país patinou em todos os segmentos da inovação, ao mesmo tempo em que perseveraram vexatórios indicadores de baixo aproveitamento educacional, o sucateamento da indústria e o desperdício da capacidade laboral de milhões de jovens sem trabalho.

Em segundo lugar, o criativo neologismo “Belíndia”, popularizado pelo economista Edmar Bacha nos anos 1970 mantém toda sua atualidade. Para Bacha, um dos pais do Plano Real, Belíndia seria um país imaginário no qual conviviam duas realidades antagônicas: uma Bélgica faustosa e uma Índia paupérrima.

Portanto, uma nação dividida a espelhar os desajustes sociais crônicos do Brasil, alegoria de um país socialmente separado por um fosso que jamais foi suavizado. Salvo se levarmos em conta os incensados ”ganhos sociais” da Era Lula & Dilma Rousseff.

Contudo, trata-se de notação absolutamente controversa. Até porque pouco houve de substantivo ou sustentável, tal como a terminologia passou a transitar entre os economistas, em termos de desentravar as estruturas da desigualdade social no país.

Que o digam em 2016, em face da notória continuidade da estagnação econômica, os 26% de jovens sem trabalho, os 13 milhões de desempregados e os incontáveis milhões de menos pobres que retornaram ingloriamente ao patamar da antiga miserabilidade.

Em terceiro lugar, no plano científico, aparte poucas e isoladas ilhas de excelência, o país é solenemente desconhecido na cartografia do conhecimento mundial. Claro sinal da indigência da academia brasileira, o Brasil é a única nação emergente no Planeta que até hoje não foi granjeada com sequer um Prêmio Nobel.

Note-se que a África do Sul, que sendo um país africano termina desqualificada por correntes de opinião preconceituosas e racistas, colecionou 11 Prêmios Nobel. Ou seja: onze vezes mais do que o Brasil, caso, é claro, se o país tivesse ao menos um Prêmio Nobel. Contudo, o país é zero em Nobel. E onze vezes zero é zero.

Assim, em sendo este o contexto vivenciado pelo país, um ataque dos comandos da Al-Qaeda ao Brasil seria absolutamente duvidoso.

No mais, Bin Laden, até o ano de 2011, quando foi justiçado sumariamente pela rede de espionagem dos Estados Unidos no Paquistão, tinha por meta desestabilizar os grandes polos do poder ocidental, prerrogativa rigorosamente ausente para países como o Brasil.

Entretanto, este elenco de características pouco notáveis poderia esgotar a discussão sobre as imagens postadas nas redes sociais não fosse o fato de que não são pertinentes ao que os próprios posts veiculam. No final das contas, o alvo de Bin Laden nos posts é o Congresso. Não é o país.

Nesta linha de abordagem, seria meritório alinhavar que transformar o complexo arquitetônico do poder legislativo em alvo iconográfico de um ataque ao melhor estilo Bin Laden é uma crítica política, mesmo porque o próprio alvo é uma imagem política.

Reconhecidamente um espelho da arquitetura nacional de poder, seria pertinente então ressalvar que o arremesso de aviões no Congresso simboliza antes o repúdio a um modo de ser, pensar e agir da política nacional, que justamente compõem o cerne da personalidade política do legislativo.

Neste particular, note-se que o mandonismo político tem sido regra geral na história do país. Embora seguidamente reapresentado sob novas roupagens, metamorfoseado sem alterar sua essência ou tão só mantendo-se num status de cláusula pétrea, a força inercial dos alicerces sociais, culturais, políticos e econômicos mais profundos tem sua manifestação exemplar nas casas do Congresso.

O Congresso Nacional é um espaço a titularizar mudanças, que até ocorrem, mas sob o signo de etapas e saltos, combinando atrasos e progressos, épocas de turbulência com lapsos de relativa e enganosa trégua nos conflitos que assediam a quietude pretendida pelas elites políticas.

Neste afazer, as tarefas da democratização, frequentemente bajuladas, proclamadas e mascaradas por discursos emancipadores, são quase sempre adiadas e engavetadas, num burlesco jogo de mistificação que se tornou uma praxe política consagrada do parlamento brasileiro.

Reconhecidamente podem existir exceções a este veredicto. Porém, com base nesta mesma lógica, eventuais bons congressistas antes confirmam, e não negam de modo algum a regra geral do Congresso. Daí a prédica relativa à incapacidade cabal do legislativo em proceder a uma autodepuração.

Isto posto, objetivamente alheios a programas de ação com autêntico enraizamento popular, os pactos políticos contrapõem narrativas que insistindo na renovação, modernização e quando não apelando para uma noção abstrata de vontade popular, não conseguem conter a propensão em repetir antigos vícios e malfeitos (FIGURA 4).


E se for para exemplificar o que ponderamos mesmo copiosos rios de tinta seriam insuficientes para tal. No Congresso, tem “um muito de tudo” para todos os gostos: malfeitos e mazelas sempre canonizadas pelo evangelho do Estado Democrático e de Direito.

Neste seguimento teríamos sinteticamente: parlamentares respondendo a processos por homicídio, estupro, grilagem de terras, tráfico de drogas e compra de votos; partidos de aluguel; deputados que fazem carreira em nome da moralidade num país onde falta pão; representantes do povo que são gazeteiros contumazes e assim por diante.

E seja qual for a conduta dos parlamentares, estes sempre são regiamente pagos e desfrutam benefícios que nem o regime do Apartheid na antiga África do Sul ousava exibir em cores tão despudoradas, a começar pelo foro privilegiado, artifício que divide juridicamente os participantes da república em duas castas rigorosamente segregadas.

Este pano de fundo notoriamente venal é comumente azeitado com dinheiro desviado de empresas públicas, as mesmas defendidas por variadas correntes partidárias para mantê-las, é claro, sob as rédeas do mesmo Estado corrupto, colocado sob a batuta de políticos também corruptos.

Isso como se não fossem satisfatórios os mimos e os ganhos extraordinários, sem paralelo no mundo civilizado, que os nobres deputados desfrutam por exercerem tão digno cargo em nome do povo.

Tudo isso acontece num país que prima por toda sorte de dessimetrias sociais, que se associam com múltiplas prevaricações de índole étnica, racial, de gênero e de opção sexual.

Nesta sequência, grandes camadas da população brasileira foram, até por falta de opção em razão dos protocolos republicanos que ornamentam o ideário nacional, adereçadas dalgum tipo de verniz participativo. Mas jamais de cidadania plena e muito menos de capacidade de intervenção na máquina de poder.

Neste caldo de cultura, vicejaram governos populistas que progrediram em meio ao aparelhamento do Estado e da exploração demagógica das contradições sociais em proveito próprio, montando máquinas de dominação vitaminadas pela corrupção e pelo desmando para com os bens públicos.

Sejamos claros: unicamente o desmonte da atual estrutura de Estado será possível trazer alguma esperança à nação brasileira. Claro que isto não é uma tarefa histórica a ser cumprida por intelectuais isolados, vanguardas iluminadas ou academias perdidas em tentar decifrar o que os pensadores estrangeiros têm a nos dizer.

O que se tem pela frente é uma tarefa ampla e coletiva, reunindo todos os segmentos da sociedade brasileira. Exatamente por esta razão não teria cabimento a repetição do episódio das Twin Towers no Brasil.

Além de infrutífero - pois certamente seria construído outro Congresso, igualzinho a este e com verbas arrecadadas dos representados -, nada seria mais conservador do que uma saída a la Bin Laden.

Neste sentido, é evidente que não existe nada no Congresso dito nacional, tal como este hoje se apresenta, a animar qualquer propensão reformista. As duas torres do Planalto Central precisam ser totalmente repaginadas com base num ideário autenticamente nacional, na forma e na essência.

Isto porque o Congresso, por tudo o que foi dito, é pura e simplesmente irreformável.

Portanto, quando muitos parlamentares manifestam incômodo com o que é postado na web sobre sua pouco honorável folha de serviços, é importante lembrar que a alternativa de explodir o legislativo com aviões constitui tão só um ato de principiantes diante do que a história efetivamente trouxe à luz em muitíssimas ocasiões.

Quem estuda sabe que povo na rua é muito mais que um simples aviãozinho suicida. É um aviso talvez fatídico. Portanto, merece a atenção de todos.

A começar pelos fiadores da ordem política, que gostem ou não, continuam a serem vistos como responsáveis diretos por tudo que acontece no país.

Simples assim.


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA, LIVROS DE 
MAURÍCIO WALDMAN NA EDITORA KOTEV


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SOBRE O AUTOR
MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman fez três traduções matriciais: Manifesto Eco Modernista (An Eco Modernist Manifesto, Breakthrough Institute), inglês-português (2015), O Ecologismo dos Pobres, de Joan Martínez Alier (2007), do espanhol para o português e Cinquenta Grandes Filósofos, de Diané Collinson (2004), do inglês para o português. Maurício Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).


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(1) WELLAUSEN, Saly da Silva. Terrorismo e os atentados de 11 de setembro. In: Tempo Social, 14(2): 83-112, outubro de 2012. São Paulo (SP): Revista da Sociologia USP. 2012.

(2) Registre-se a existência de peças alegóricas com maior conteúdo técnico, mas com o mesmo tipo de abordagem, igualmente disseminadas nas redes sociais:
https://www.youtube.com/watch?v=VWimpA18AYw

(3) HIRSCH, Joachim. Teoria Materialista do Estado - Processos de transformação do sistema capitalista de Estados. Rio de Janeiro (RJ): Revan. 2010.

(4) SANTOS, Milton. Por Uma Geografia Nova: Da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo (SP): coedição Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP) e Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia (HUCITEC). 1978.

























domingo, 6 de novembro de 2016

MOISÉS ERA NEGRO?


Este texto tem como interlocutor uma pessoa que não está mais neste mundo: o meu amigo Milton Schwantes (1946-2012). Para quem não sabe, Schwantes foi um notável teólogo luterano, biblista internacionalmente reconhecido e professor na área das ciências da religião.

Milton Schwantes era perito nos livros que compõem a Torah, nome hebraico do Antigo Testamento, que conhecia como a palma da mão. Era igualmente um especialista em hebraico, aramaico, grego koiné e em ugarítico, esta última uma língua semítica extinta desde o Século XII A.C.

Além disso, se destacou como autoridade nas culturas que compunham o mundo bíblico de antanho, que grosso modo integravam o que hoje a geografia define como Oriente Médio.

Seria imperioso registrar que a sabedoria de Schwantes deixou marca indelével em todos que tiveram o privilégio em conhecê-lo e desfrutar dos seus ensinamentos. Inclusive eu, com quem cultivei uma carinhosa amizade nos idos dos anos 1980, um tempo memorável, cadenciado pelos debates e discussões travadas no antigo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI).

Foi assim que certa vez, numa prosa mantida com Schwantes, veio à baila um tema relacionado com Moisés, o grande legislador judeu, nome que para a eternidade está associado ao Asereth ha-D'bharîm (הדברים עשרת). Isto é: os Dez Mandamentos ou o Decálogo.

Personagem icônico, Moisés é nexo magnetizador no pensamento judaico-cristão. Como tal, ocupou o centro de muitos debates filosóficos e no campo da teologia, sendo ao mesmo tempo homenageado em peças culturais e artísticas, dentre as quais, a célebre escultura de Michelangelo Buonarroti (1475-1564), considerada um marco do Renascimento (FIGURA 1).

FIGURA 1: A estátua de Moisés, tal como representado pelo artista toscano, instalada na Basílica de San Pietro in Vincoli, ou Basílica de São Pedro Acorrentado, em Roma.


Tendo este ilustre personagem em foco, Schwantes, que também era um grande contador de histórias, passou então a comentar um episódio da história de Moisés que por sinal é de amplo conhecimento, inclusive do público leigo em Bíblia. Mas, que envolve uma nota particular que não escapou ao aguçado e perspicaz olhar de Milton.

Então, eis que transcorreu um animado comentário a respeito de uma passagem do livro do Êxodo, o segundo livro da Torah, no qual está consignado que Moisés, deambulando pelo deserto, topou com um poço no qual as filhas de Jetro, o maior dos sacerdotes terras de Madian, estavam a tirar água da fonte para dessedentar os rebanhos.

Neste grupo constava Tzipporah (צִפוֹרָה) ou Zipora em português, que mais tarde, tal como a Bíblia nos conta, se tornaria mulher de Moisés. 

Retenha-se que a Bíblia mantém permanente preocupação com o nome dos seus personagens. Tzipporah deriva do hebraico צִפּוֹר (tzippor), reportando a “pássaro”, “pássaro pequeno” ou “pardal”. Há quem avente a associação deste nome com o canto dos pássaros, o chilro, indicando que o Tzipporah seria uma mulher amável e delicada.

Seguindo com a narrativa do evento, o valoroso Moisés, chegando ao local no meio da sua caminhada pela escaldante paisagem de Madian, se deparou como assim nos ensina a Bíblia, com as filhas do madianita Jetro no olho d’água.

Mas não só. No local também encontrou um incômodo grupo de pastores locais, seguramente uma versão ancestral dos atuais bad boys, que estavam a apoquentar e assediar as moças. Talvez dando curso ao que hoje denominamos de bullying. Ou pior, planejando algo nada civilizado.

Moisés, homem altivo, cortez e valoroso, não deixou por menos. Enfurecido com o mau caratismo deste bando de cafajestes, partiu em defesa das moças. “Foi para o pau”, como hoje coloquialmente dizemos. E rapidinho, pôs os malfeitores a correr.

Eis que aquele homem, fugitivo do país onde nascera e fora criado, o Egito, havia salvado a honra das filhas de Jetro. Havia tomado esta atitude por puro senso de justiça. E fez o que fez sem maiores delongas.

Neste momento a Bíblia relata que prontamente Tzipporah correu para as tendas de Jetro, e disse-lhe: “Pai, um egípcio salvou- nos dos pastores”.

Ao repetir este trecho do Bamidbar (במדבר) ou do livro de Êxodo (2: 18-20), Milton então inteligentemente ponderou: “Irmão (era assim que Schwantes se dirigia à mim), há um ponto muito interessante nesta passagem. Note bem: como é que Tzipporah sabia que Moisés era egípcio? Ora, Moisés não havia se apresentado. Então, como Tzipporah sabia da procedência de Moisés?

Certo é, argumentou Schwantes, que Tzipporah não havia notado o pedigree de Moisés pelo vestuário. O grande legislador, que mais tarde teria a honra de receber do Altíssimo os Dez Mandamentos, não estava vestido à moda egípcia. O deserto é um nicho ecológico específico e impõe aos que tem a pretensão de atravessá-lo roupas adequadas para esta verdadeira peripécia.

E mais: não poderia estar com os trajes típicos do vale do Nilo pela simples razão que havia feito justiça com as próprias mãos ao matar um capataz do Faraó que estava a chicotear um escravo hebreu. Qual seja: estava na lista dos delinqüentes procurados do Faraó.

No mais, o Egito mantinha um ativo serviço de espionagem no entorno geográfico do país. Particularmente, estava em alerta permanente quanto às movimentações dos nômades, uma ameaça persistente às fronteiras do Estado e à estabilidade política que os egípcios cultivavam como ponto de honra de sua civilização.

Deste modo, qualquer um que ousasse vaguear pela periferia do Egito vestido como egípcio seria rapidamente detectado. No caso de Moisés, seria capturado e levado ao país do Nilo para ser preso, julgado e punido. E como havia afrontado diretamente o poder do Faraó, seria morto sem dó nem piedade. Nenhum fugitivo da justiça faraônica, tendo amor à própria pele, cometeria erro tão primário.

Retenha-se que a preocupação em dar um sumiço na indumentária seria uma providência tomada imediatamente por qualquer fugitivo do vale do Nilo. Sendo o centro de uma magnífica civilização, o Egito constituía um pólo de atração e não de retração de pessoas no antigo Oriente Médio. Ninguém imigrava do Egito. Saíam do país unicamente os proscritos e os criminosos. Se um egípcio estava fora do país, boa gente não era.

Aliás, tal precaução está registrada num clássico literário do antigo Egito: A História de Sinuhe. Este texto, um autêntico best seller datado do início do ano 2000 A.C., foi copiado por gerações sem conta, tamanha a popularidade que conquistou no imaginário popular dos egípcios.

Esta jóia da literatura da antiguidade narra a história de Sinuhe, que como Moisés, comete um crime e foge da fúria do  Faraó tomando o rumo do deserto. E qual a primeira atitude de Sinuhe? Tirar as vestes egípcias e adotar imediatamente as roupas dos beduínos.

Isto porque quem está na condição de fora da lei não pode dormir no ponto. Tem que se esconder noutro espaço e também disfarçar sua própria identidade. Óbvio e Elementar.

Fica então uma pergunta no ar: Dado que Tzipporah não identificou Moisés como egípcio pelas vestes, logo, como sabia que o estrangeiro que era um egípcio?

Foi neste momento que Schwantes fez uma pausa e disse: “Foi pela pigmentação de Moisés”, sentenciou Milton Schwantes. Ou seja: Moisés era negro. Portanto, foi suficiente Tzipporah bater o olho no recém chegado para saber disso.

Certo é que esta interessante observação de Schwantes não foi feita ao sabor de um arroubo de oratória. Também não pretendia para gerar polêmicas a esmo, inevitáveis quando se sabe que a imagem construída de Moisés o coloca no plano das populações de tez branca. Como a propósito é o que testemunha a escultura de Michelangelo.

Na realidade, devemos asseverar que colocar um personagem como Moisés como pertencente ao campo da Africanidade por ser egípcio, faz sentido, e muito.

Trata-se de ponderação que pode parecer um despropósito para os não-iniciados em antropologia, história e geografia da África. Mas entenda-se: pretender que Moisés seria negro por ser egípcio é uma considerarão calçada em inúmeros e profundos estudos sobre o passado do país do Nilo.

No meu caso, desde criança escutava do meu pai, que era um leitor assíduo de arqueologia, ponderar que sobre a impossibilidade de um país banhado pelo Nilo, rio que comunica o Egito diretamente com o centro da África, ter conseguido se safar das influências procedentes do interior do continente. “Filho, o Egito não era branco de jeito nenhum”, disse-me várias vezes.

Mais tarde, no curso de Ciências Sociais, que freqüentei entre 1975 e 1981, estudei ampla literatura a respeito deste temário, instigante e pertinente. Até porque se trata de um debate indissociável da crítica dirigida ao leque de estratégias de desqualificação racial indistinguíveis do processo de expansão do mundo ocidental.

Certificando este ponto com maior precisão, a partir da empreitada das grandes descobertas, os ocidentais depararam com muitos povos que estavam distantes de qualquer estado considerado como “selvageria”. Pelo contrário, se distinguiam como gestores de notáveis criações em todos os campos do conhecimento.

Todavia, mesmo a existência de provas irrefutáveis da capacidade dos povos extra-europeus em encetar ousadas iniciativas no campo técnico, cultural e civilizatório em geral, foi insuficiente para frear a construção do mito da supremacia racial europeia.

Pelo que se pode conferir, o efeito foi exatamente oposto: o Ocidente entregou-se com apaixonada devoção ao trabalho de elaborar um sistema de justificativas que lhe garantisse um posto privilegiado diante de todos os demais povos e culturas.

E por privilegiado entenda-se: muito melhor do que os demais, superior, racialmente superior.

Assim sendo, diante do fato consumado de que a civilização humana foi em larga medida devedora de culturas não-ocidentais, a Europa passou a desenvolver teorias com intenção explícita de negar que tais realizações fossem de responsabilidade de não-brancos, teorizações que em especial, tiveram como um dos alvos preferenciais a civilização egípcia.

Não por outra razão senão pelo Egito ter alcançado brilhantes e magníficos sem paralelo na antiguidade. Isto no mesmo contexto em que os europeus disputavam cavernas com ursos. E, diga-se de passagem, frequentemente levando a pior.  

De vez que o passado condenava a Europa, para elaborar o mito da supremacia inata dos brancos europeus, urgia, pois encontrar uma forma de reverter, mesmo que mascarando e falseando para com a verdade, o que simplesmente não podia ser revelado.

No caso do Egito, este desafio era maior. Se o país do Nilo já transparecia como um incômodo aos olhos europeus por ser uma antiga e grande civilização situada fora da Europa, tratava-se paradoxalmente de uma nação localizada na África e para piorar ainda mais, apresentava fortes conexões com o mundo negro.

À vista disso, o Egito faraônico passou a ser desde o Século XVIII apropriado pela história ocidental através da negação pura e simples dos elos mantidos com a Africanidade. Assim, uma série imensa de textos e imagens passou a definir os antigos egípcios e suas esplêndidas conquistas culturais como obra de povos de tez clara.

Levada às últimas conseqüências, tal ideação arianizou uma civilização que do ponto de vista geográfico, histórico e cultural sempre foi africana, fabulação realizada a partir da construção de imagens míticas de fundo racial, propaladas por uma série de produtos culturais.

Para conferir esta assertiva, basta recordar a profusão de películas cinematográficas com egípcios alvos, quando não loiros, altos, de olhos azuis e apresentando feições impecavelmente germânicas, que surgem iluminados sob os fortes raios do Sol que banham o país do Nilo.

Entretanto, as características fenotípicas destes “egípcios” de Hollywood destoam inteiramente dos grupos que originalmente ocuparam a calha do Nilo. A despeito do relativo sucesso em arianizar o imaginário social referente ao Egito, tais fabulações são de tal modo incongruentes e inverídicas, que inspiraram reações críticas a este Egito ficcional.

Nesta senda, desde os anos 1950, e com mais força a partir dos anos 1970, com a realização de investigações apoiadas por entidades como a UNESCO (acrônimo em inglês de Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), variada gama de estudiosos e investigadores colocou em cheque a imagem de um Egito adaptado à pretensão de uma superioridade branca, sendo cientificamente revista e retificada.

Ainda assim, apenas a muito custo logrou-se a reintegração do Egito com o teatro histórico, cultural e geográfico ao qual pertence: a África.

Num exemplo quase alegórico, a tese de doutorado do historiador e antropólogo senegalês Cheik Anta Diop (1923-1986), versando sobre a raiz africana da civilização egípcia - conceito que hoje goza de plena aceitação acadêmica - instigou, na época, acesas controvérsias. Tanto assim que a tese de Diop foi rechaçada na Universidade de Paris-Sorbonne em 1951 e aprovada somente numa segunda apresentação do trabalho em 1960.

Outra exemplificação é um depoimento de outro grande amigo também falecido, o jornalista Antônio Lúcio Nogueira (1945-2015), decano dos jornalistas negros do Brasil. 

Certa ocasião, palestrando numa universidade do interior do Estado de São Paulo no ano 2000, Lúcio confidenciou-me que ao asseverar que o antigo Egito era uma civilização negra, metade da platéia literalmente “surtou”. Houve até mesmo quem protestasse que a fala de Lúcio constituía um “exagero”. Outros ainda expuseram cinicamente indignação por meu amigo insistir no que consideravam como sendo “um mero detalhe”.

Todavia, atente-se que independentemente do que é debatido nas universidades, são muitas as provas de que a percepção que os egípcios faziam de si mesmos sempre apontam para uma auto-imagem imersa na Africanidade. É o que pode ser observado nos murais resgatados das areias pelos arqueólogos, dentre os quais, a pintura encontrada na tumba de Khnumhotep, em Beni Hassan (FIGURA 2).

FIGURA 2 - Funcionários do Faraó repertoriando a passagem de um grupo de nômades semitas por um posto fronteiriço egípcio (cerca de 2.400 A.C.)

Este mural retrata procedimentos burocráticos cotidianos de fiscais fronteiriços no contato com populações semíticas, procedendo a registros e identificação de um grupo composto por famílias e rebanhos. Os semitas são facilmente reconhecíveis pelo vestuário e pelo padrão dos tecidos; por instrumentos musicais e armas; pelo corte de cabelo e da barba; pelas sandálias e galochas que usam.

Mas interessantemente, o que mais chama a atenção é a cor da pele do grupo nômade em contraste com a pigmentação dos burocratas egípcios: tênue para os semitas, mais forte para os egípcios. Uma das provas cabais, dentre muitas outras, de que os egípcios não se consideravam - até porque não eram - um povo branco.

Então estando claro que sendo Moisés negro por ser egípcio, outro aspecto não negligenciável da egipcianidade deste herói bíblico seria o próprio nome. Conforme frisamos nos parágrafos anteriores, a Bíblia demonstra claro cuidado com questões relativas a nomes, assim como para epítetos e patronímicos.

Não por acaso, no Livro de Bereshit (בראשית) ou Genesis, Deus nomeia cada uma das entidades que formam a criação, dando-lhes um nome que granjeia substância à identidade e posição ocupada por cada item no conjunto de sua obra.

Do mesmo modo, frisa que Ruth, ancestral de Davi, era moabita e que Urias, cuja esposa Batsebá ou Betsabé era desejada por Davi, era um Hitita. Igualmente informa que o profeta Sofonias era um cushita, ou dito de outro modo, negro.

Pois bem: a origem hebraica do nome Moisés (מֹשֶׁה, Moshe), não é em absoluto um consenso. O caráter egípcio do nome Moisés foi repetidamente reconhecido como tal por renomados autores judeus em diversos contextos e épocas.

A saber: Filon de Alexandria (20 A.C-50 D.C.) associou o profeta à terminologia egípcia para água. Já Flavius Josefus (28-100 D.C.), o mais ilustre historiador judeu da era romana, confirma do mesmo modo esta pista etimológica.

Para arrematar, ninguém menos que o icônico linguista judeu de origem iraquiana Abraham Shalom Yahuda (1877-1951), baseado na ortografia presente no Tanach (תַּנַ"ךְ), a ordenação específica dos livros bíblicos pela tradição judaica, argumenta que as raízes do nome Moisés geram o sentido ampliado de “filho do Nilo”. Qual seja: egípcio.

E não poderia ser de outro modo. Sendo os egípcios um povo não-branco, como poderia Moisés não ter características egípcias se foi criado na corte do Faraó?

Com certeza, como no mural de Beni Hassan, os egípcios sabiam que se distinguiam dos demais povos por diversas características, dentre as quais as herdadas do contexto africano no qual viveram e criaram sua civilização. Um Moisés não-egípcio certamente não passaria batido. Ainda mais na corte do Faraó.

No mais, e ao menos este é o entendimento do autor deste texto, que é judeu e que a esta condição agrega a de ser orgulhosamente um antropólogo africanista, inteligivelmente a discussão sobre a pigmentação maior ou menor de Moisés não faria qualquer sentido.

Todos os humanos pertencem à mesmíssima espécie, independentemente de traços fenotípicos, da bagagem cultural, classe social, gênero, nacionalidade, religião ou opção sexual. Nada disso na realidade importa na perspectiva de uma Humanidade que embora globalizada, segue desunida e fragilizada.

Contudo, o debate sobre a Africanidade de Moisés, e identicamente de uma série de contribuições acintosamente roubadas da África, torna essencial uma discussão que também seja feita nestes termos com o fito de recuperar o que há de africano na cultura universal.

Foi o Ocidente - e não a África - que transformou o critério de raça numa sintaxe matricial da discriminação, ao arrepio de todas as antigas tradições de todos os povos. Inclusive da Bíblia, que como sempre enfatizava Milton Schwantes, insiste no caráter único da Humanidade.

Portanto um Moisés negro é neste sentido, tão interessante quanto um Moisés branco. E se alguém se incomodar com uma negritude possivelmente adereçada a Moisés, que então engula este sapo.

Por mim tudo bem. É isso. Simples assim.


                                           MOISÉS ERA NEGRO? 
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MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Participou no movimento ecumênico e trabalhou no Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI). Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman fez três traduções matriciais: Manifesto Eco Modernista (An Eco Modernist Manifesto, Breakthrough Institute), inglês-português (2015), O Ecologismo dos Pobres, de Joan Martínez Alier (2007), do espanhol para o português e Cinquenta Grandes Filósofos, de Diané Collinson (2004), do inglês para o português. Maurício Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).


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