1 de outubro de 2019

COMENDO TOMATE COM A ÁGUA DOS OUTROS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 4



Desde finais do Século XX, a partir dos estudos relacionados à rarefação da água, difundiram-se análises baseadas em métricas do consumo de água das atividades econômicas.

Num cenário pespontado pelas ansiedades despertadas pela falta d’água, a noção da importância da volumetria que cabe aos produtos, determinou que o conceito de água incorporada ou virtual, passasse a frequentar os manuais e os prontuários do comércio exterior.

Como podemos deduzir do nome dado ao conceito, trata-se da proporção de água doce que cada mercadoria solicita, e que não obstante ser indispensável para obter o produto final, ninguém a rigor, vê a menor fração do líquido quando compra pão, carne, uvas ou, como no caso deste texto, tomates. Daí justificadamente, o uso do termo virtual.

No marco colocado pelo comércio internacional, que como tudo o que se refere à ordem global é manifestadamente desigual, impõe-se uma conclusão: a de que determinados países, estejam ou não calçados em estoques hídricos, despontam como provedores de água na forma de bens primários como grãos, frutas, minérios e proteína animal.

Neste sentido, entendendo-se que na economia global os recursos são extraídos em um país, transformados em bens em outro e consumidos num terceiro, os fluxos de água virtual possuem enorme relevância, pois revelam o quanto as dessimetrias do poder econômico agem para beneficiar poucos países em detrimento dos demais, que arcam com os custos ambientais da produção de bens.

Materializando uma geografia do poder, esta assertiva cabe como uma luva para os países europeus, que como um todo, asseguram 40% da sua pegada hídrica, isto é, da água doce que consomem, a partir de montantes hídricos externalizados fora das suas fronteiras.

Mas, note-se que as nações europeias mais poderosas, tais como Itália, Alemanha e Inglaterra, possuem pegadas hídricas externas bem maiores, variando entre 60% a 95% do consumo total. Isto é, absorvem água embutida nas mercadorias oriundas de países externos de onde ocorre o consumo final, implicando numa portentosa economia de recursos hídricos.

Neste prisma, desponta em especial a economia alemã, cujo poderio é manifesto. Potência econômica de primeira linha, a Alemanha tem a quarta maior economia do Planeta em termos de PIB nominal, sendo líder global em diversos setores fabris e tecnológicos e terceiro maior exportador e importador mundial de mercadorias.

O mercado alemão é destino preferencial de commodities como petróleo e gás, madeiras, minérios e itens agrícolas como a soja, café, painço, óleos vegetais, grãos, borracha, algodão, cacau, azeite e açúcar, que esbanjam eloquente água virtual, importados, no geral, de nações periféricas.

Note-se que a Alemanha, em paralelo ao movimentado comércio com os países do Terceiro Mundo, é ativo parceiro comercial das nações europeias vizinhas, que por motivos logísticos, tais como frete e a perecibilidade de determinados produtos, são fornecedores da mesa dos alemães, fato que também recoloca na pauta, o comércio de água virtual.

Tome-se, por exemplo, o elucidativo caso da pegada hídrica alemã no tocante ao consumo de tomates. No período 1996-2005, a produção alemã do produto foi de 47.000 toneladas por ano, com um índice médio 36 m³ de água para produzir cada tonelada do produto.

Todavia, neste mesmo lapso de tempo, os alemães, para saciar sua predileção pelo apetitoso fruto vermelhinho, importaram 667.000 toneladas/ano de tomates, pelo que, na somatória média dos tomates importados, o mercado consumidor alemão dispôs de 57 m³ de água para cada tonelada do fruto.

Logo, numa contabilidade sumária, a importação de tomate gerou uma poupança de 38.019.000 de m³ do líquido, economizados do capital hídrico alemão. Para ofertar maior inteligibilidade ao montante de 38.019.000 de m³, que tão só informa a pegada hídrica dos tomates, este volume seria suficiente para:

·        Saciar a sede dos novaiorquinos durante quase cinco anos;

·        Dessedentar todos os portugueses durante quase três anos;

·        Garantir água de beber para todos os berlinenses durante onze anos.

Portanto, é água para dar inveja às cataratas do Niagara. Daí que o comércio de água virtual é uma importante ferramenta para avaliarmos a extensividade do império da sede, com o qual o mercado mundial mantém insofismável relação siamesa.

Indo direto ao ponto, a sede possui diversas fisionomias. Está presente na torneira seca e nas filas que se formam em todo o mundo em torno dos caminhões-pipa.
E embora como foi dito, não seja evidente, também está representada no simpático e suculento tomatinho que todos gostam de levar à boca. Principalmente quando a boca em questão, é a dos outros.



SAIBA MAIS SOBRE A DESIGUALDADE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:

Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF:                       
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Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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20 de setembro de 2019

TIBETE: AS COBIÇADAS ÁGUAS DO TETO DO MUNDO - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 3




No Século XXI, o alastramento do império da sede tem na garrafa de água mineral engarrafada, no gado esquálido e nos caminhões-pipa rodeados de sedentos, imagens aceitas sem pestanejar como expressões emblemáticas da rarefação das águas doces.

Mas, dado que nada é real fora da nossa percepção do real, a ordem global está nos dias de hoje pespontada por conflitos entre povos, regiões e países pela posse do líquido vital, fato nem sempre evidente aos olhos da opinião pública.

Um destes litígios reporta ao Tibete, país antigo que durante séculos, manteve-se em relativo isolamento, governado desde o Século XIV por Dalai-Lamas, reis-sacerdotes tidos como reencarnações de Gendun Drup, o primeiro destes monarcas, entronizado com apoio do sacerdócio budista.

A administração do país, sediada na cidade de Lhasa, tinha no Palácio do Potala, justamente a imagem que abre este artigo ( < https://www.lonelyplanet.com/china/lhasa/attractions/potala-palace/a/poi-sig/435266/356124 >), o cerne da ordem social, política e religiosa, voltada para manter o insulamento do Tibete.

A geografia pareceu conspirar em favor deste objetivo, a começar pelas soberbas montanhas do Himalaia, onde encontramos, na fronteira com o Nepal, o Pico do Everest (8.848 metros), o ponto mais alto da Terra. Alastrando-se pelo mais alto e vasto planalto da Terra (o Plateau Tibetano), o Tibete é por esta exata razão, conhecido como “Telhado”, ou “Teto do Mundo”.

Ao mesmo tempo, tal singularidade topográfica explica a relevância hidrológica do país, berço de extensos rios alimentados pelo degelo das cordilheiras do planalto. Assim, o Tibete é um autêntico manancial de águas para vasta extensão da Ásia (Vide Mapa).

Geografia Hídrica do Tibete
(Fonte: < https://www.meltdownintibet.com/f_maps.htm >. Acesso: 26-12-2018)

As relações do Tibete com seu poderoso vizinho, a China, oscilaram tremendamente ao longo do tempo, marcada pela resistência do país em ser anexado pelos chineses. Em 1950, tropas da República Popular da China (RPC), entraram em Lhasa, e 15 anos após, Pequim repaginou administrativamente o país enquanto região autônoma no interior da organização político-territorial da China.

Este status é objeto de várias polêmicas, em especial pelo centralismo com que a RPC exerce o mando no Tibete, tendo por resposta, movimentos pela independência tibetana, cuja primeira exigência, é a retirada incondicional da China do planalto.

Por sua vez, a RPC repudia o que classifica como tentativa de solapar a integridade territorial do país, como também reprime as mobilizações independentistas. A razão da intransigência de Pequim justifica-se, dentre outros pontos, por motivações de fundo hidrológico.

Como é possível conferir no Mapa, o Tibete é um pivot hidrológico de primeira linha para grande parte da Ásia. A posse do imponente planalto garante à China uma poderosa fortaleza natural que protege os centros vitais do país, que mais ainda, estando a cavaleiro dos rios que fluem a jusante, garante aos chineses influente papel geopolítico em vasta parte do continente.

A partir do planalto, nascem todos os grandes rios da Ásia Meridional e do Extremo Oriente: Brahmaputra, Ganges, Irrawadi, Mekong, Salueen, Yang-Tsé-Kiang (rio Amarelo), Hoang-Ho (rio Azul), Hindus e o Sutlej. Logo, a China literalmente controla uma fatoração hídrica indissociável da sua projeção na esfera da política continental e global.

Certo é que nada disto depõe em contrário ao fervor nacional tibetano, que a despeito dos vínculos históricos mantidos com a China, contesta o que entende como usurpação do direito de autodeterminação.

Porém, recordemos as considerações do geógrafo francês Claude Raffestin, que em Por Uma Geografia do Poder, numa explicação direta e objetiva, recorda que sendo a água um líquido vital e insubstituível, qualquer forma de dominação exercida a partir dos provimentos do líquido, necessariamente articula arquiteturas de poder propensas a se imiscuir em todos os interstícios do edifício político.

Isto é: a água é no caso do Tibete, assim como em muitos outros cenários da ordem global, vetor que explica a exacerbação das disputas e do hegemonismo político. Logo, como advertem os especialistas em geopolítica, a China dificilmente, ou mesmo jamais, abrirá mão do Tibete.

Torcemos para que a nação tibetana possa estar ao comando do seu próprio destino. Contudo, indo direto ao ponto, os obstáculos, senão intransponíveis, são, pelo mínimo, acintosamente espinhosos.

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ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE
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Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:


Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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12 de setembro de 2019

ANCESTRAL GAY, TODO MUNDO TEM



A sala estava repleta quando o autor deste texto desenvolvia em 2008, uma das aulas do curso de capacitação para professores da rede municipal de ensino de Poços de Caldas (MG).

Abordando o tema da diversidade humana, explanava quão frágeis são as prédicas firmadas em “raças” - que não dizer de grupos e raças “puras” -, uma concepção estranha, que a despeito da ausência completa de cientificidade, prossegue na colonização do imaginário social.

Comentando esta noção, reportei a uma sagaz ponderação do geógrafo galês Emrys Jones, que se distinguiu por argumentações apoiadas em bases de dados objetivas.

A avaliação inicial de Jones sobre a raça humana, por sinal, a única que de fato existe, repete o que é óbvio nas ciências sociais. Detalhes como cor da pele, tipo de cabelo, altura e formato dos olhos, não são determinantes para definir um “tronco racial” e tampouco, supostas virtudes ou imperfeições inatas.

Jones também reforçava este argumento recordando o fato de que devido ao longo histórico de miscigenações entre povos e etnias, a prédica das “raças puras” se convertia num axioma totalmente desprovido de sentido.

Numa dedução interessante, o geógrafo inovou ao recordar que retrocedendo pela árvore genealógica, os antepassados de um indivíduo se multiplicam em progressão geométrica.

Assim sendo, se um contemporâneo nosso puder reconstruir sua árvore genealógica até oito gerações precedentes, isto significa que sua constituição genética e, por conseguinte seu aspecto físico, decorre de 510 antepassados que viveram por volta do ano 1700.

De quantos antepassados então não descenderíamos, caso a linha do tempo fosse recuada em mais mil ou dez mil anos? Seriam dezenas de milhares de ancestrais! Nesta escala, qualquer um de nós tem de tudo na genealogia: africanos, esquimós, indianos, judeus, irlandeses e por aí vai.

Apurando o raciocínio, registrei que além da diversidade étnica e cultural, pessoas diferentes em termos de índole, poder social e personalidade, constam nos nossos prontuários genéticos: santos e ladrões, mendigos e ricaços, honestos e malfeitores.

Ademais, afirmei que este elenco não estaria completo caso omitíssemos as opções sexuais. Com efeito, na nossa ancestralidade, lado a lado com ampla tipologia de multiplicidades, poderíamos encontrar pessoas “calminhas” e as ditas puladoras “de cerca”, e porque não, o que coloquialmente foi consagrado como sendo gays.

Foi neste momento que um dos participantes da aula, indisposto com o comentário, interrompeu-me de um modo um tanto deselegante: “Professor, isto é impossível! Pai e mãe são de sexos opostos”.

“Não exatamente”, respondi. Recordei-lhe que pode acontecer que um gay fique curioso para “experimentar” o sexo oposto. Portanto, é perfeitamente possível que sejam pais e mães.

Na sequencia, fui mais claro ainda e disse: “Pois é, pode ser que num momento de curiosidade é que exatamente um dos seus ancestrais surgiu”. E aí, em meio a gargalhadas gerais da sala, o debate finalizou.

Certamente, o debate sobre o homossexualismo é profundo e polêmico, e até demais para o gosto deste autor. Prova disso, recentemente o prefeito Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, cidade caótica, mergulhada em seríssimos problemas, se dispôs a abrir brecha na agenda oficial para acompanhar o recolhimento de uma HQ com beijo gay na Bienal do Livro.

Este fato, lamentável por uma vez mais confirmar que no Brasil, existem “leis que pegam” e “leis que não pegam”, acontecendo poucas semanas após o STF ter criminalizado a homofobia, demonstra também o abismo de compreensão de uma temática, que não permitiria tamanhas reações de inconformismo.

O homossexualismo é registrado desde que este mundo é mundo, variando tão só na sua aceitação sociocultural por parte de diferentes comunidades ao longo do tempo.

Aparte detalhamentos pontuais, o que a lógica do concreto impõe é que temos vizinhos, colegas de trabalho, empresários e políticos gays. No mais, que no passado, sabe-se lá quem ao longo do tempo, tivemos ancestrais gays, que assim eram porque assim vieram ao mundo. Simples assim.

Embora para alguns o dado seja perturbador, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Goste-se ou não da ideia, ancestral gay, todo mundo teve. E também, goste-se ou não disso, todos seremos, cedo ou tarde, ancestrais de gays.


Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mailmw@mw.pro.br


ARTIGOS RECENTES POSTADOS EM FOCO DE FATO:


A TRAGÉDIA DAS ÁGUAS ATORMENTADAS - ARTIGO DA SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 2: http://focodefato.blogspot.com/2019/09/a-tragedia-das-aguas-atormentadas.html


ÁGUAS MINERAIS IMPURAS - ARTIGO DA SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 1: http://focodefato.blogspot.com/2019/08/aguas-minerais-impuras-serie-imperio-da.html


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6 de setembro de 2019

A TRAGÉDIA DAS ÁGUAS ATORMENTADAS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 2



Nota essencial no debate da crise hídrica, o império da sede não se alastra tão só em razão da rarefação das águas doces. Junto com a escassez, expandiu-se a difusão das águas impuras, de má qualidade, ou então, “fake”, nexo que inclui a água “mineral” engarrafada, por alguns, entendida como opção para substituir o líquido por vezes estranho e intragável que sai das torneiras.

Mas, não é esta a opinião do autor deste artigo. Direto e sem rodeios, coloquemos na roda de discussão o caso da água “mineral” Pure Life (circulando na América Latina com o rótulo Pureza Vital), engarrafada pela Nestlé na pacata cidade mineira de São Lourenço, que a mais ver, gerou, desde os anos 1990, um sério contencioso entre a sociedade local e a multinacional, revelando também implicações da mercantilização das águas.

Em 1992, a Nestlé adquiriu o controle da empresa Perrier Vittel, incluindo nesse espólio a concessão da exploração das fontes do Parque das Águas de São Lourenço (desde 2018 sob controle do Grupo Edson Queiroz), fontanários que integram o polo turístico do Circuito das Águas do Sul de Minas Gerais, cuja economia, é dependente das fontes de água mineral, conhecidas desde 1826 e afamadas pelo indiscutível valor medicinal.

A Nestlé, assenhoreando-se do Parque das Águas, perfurou em 1996 um novo poço para fabricar a água da marca Pure Life, ou seja: Vida Pura. Neste processo, a água mineral - por definição um bem natural raro, nobre e singular -, passou a ser, após a extração, desmineralizada e artificialmente enriquecida de sais, acatando fórmula padrão comum a 56 plantas desta marca em todo o mundo, e neste "avatar hídrico", colocada à venda em dezenas de países onde a marca é encontrada.

A Pure Life, na realidade um produto adereçado de apelos imaginários, não passa, em bom alemão, de uma ersatz wasser, isto é, um sucedâneo da água natural. A desmineralização, além de alvo de objeções legais, é contestada por pesquisadores, repudiada pelos ambientalistas e criticada por entidades de defesa do consumidor, que detectam na prática da Nestlé, um capítulo dos processos de estandardização inerentes à fordização da economia moderna.

Mas, nada disto demoveu a Nestlé, que continuou a fabricar a Pure Life, e lado a lado a polêmicas jurídicas, com o objetivo de atender metas comerciais, a empresa intensificou o ritmo de bombeamento das fontes, arruinando os lençóis subterrâneos, o que provocou em 2002, a extinção da fonte magnesiana, seguida do recalque do solo da área da concessão.

Estes impactos suscitaram mobilização da comunidade na defesa do Parque das Águas, envolvendo ações judiciais contra a Nestlé com apoio de movimentos sociais. Porém, no que evidencia as limitações do Estado frente ao poder econômico, estas movimentações, mesmo angariando respaldo jurisprudencial na Suíça, país-sede da Nestlé, e farta visibilidade na mídia europeia (nisto diferindo do cauteloso silêncio da imprensa nacional), foram frustradas por manobras burocráticas e pela influência da poderosa corporação.

Bastou a Nestlé anunciar o fechamento da fábrica para que as autoridades estaduais e federais corressem em seu socorro. Em Minas Gerais, foi prontamente concedida uma licença corretiva permitindo a continuidade das operações da Nestlé e, em nível federal, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), anunciou nova portaria autorizando a desmineralização “parcial” das águas minerais.

Estes agravos, à revelia da legislação, foram analisados pela Curadoria do Meio Ambiente de São Lourenço, que em Ação Civil Pública instruída em Dezembro de 2001, registrou tormentos impostos às águas, tais como: perfuração ilegal do poço, à revelia do DNPM, que constatou o embuste e não tomou nenhuma providência; degradação ambiental dos veios subterrâneos, afetando a comunidade ao por a perder o turismo e próprias águas; uso irracional de recurso raro e limitado para a produção da Pure Life, por parte de uma empresa cujo único interesse é o lucro.

Prova inconteste da tibieza do suposto poder “público” brasileiro, e no que pese a consistência da argumentação legal da ação civil pública e de denúncias posteriores, este nefando histórico de agressões à saúde das águas, inaugurado pela Nestlé nos anos 1990 na Era FHC, prosseguiu sem modificações nas duas gestões do presidente Lula, contando também com a conivência do governo mineiro, monitorado pelo PSDB.

Claro sinal de que as ameaças que rondam as águas doces não têm como polaridade confratual apenas as grandes corporações e partidos políticos, mas igualmente, o caráter omissivo do aparelho estatal brasileiro, o que remete de modo direto, à questão das formas de governança do Estado. Ou dito de outro modo, descartando-se a tarefa espinhosa de repensar o Estado brasileiro, não há como propor uma clara, justa e eficaz defesa das águas.

Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br

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Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:


Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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28 de agosto de 2019

SALLES: OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?

SALLES:
OBTUSO OU IRRESPONSÁVEL?



Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente, protagonizou no curto lapso de alguns meses, pouco memorável coleção de embates na área que lhe compete na esfera estatal.

A trajetória de Salles, plugada à concertação liderada pelo Presidente Jair Bolsonaro, tornou-se em si mesma, aos olhos de parcela expressiva da opinião pública, prova cabal de sua incapacidade em exercer o complexo mandato pelo meio ambiente.

Muitos definem Salles como irresponsável. Contudo, entendo que tal adjetivação, mesmo que tecnicamente correta, seria merecedora de reparos, em vista de avaliar que a atuação do ministro não reporta a casualidades, mas sim, a descompassos e lacunas mais profundas.

Neste cenário, cabe frisar que o Estado brasileiro, na voz do geógrafo Milton Santos, teria por meta mistificar, propagar, ou gerar uma ideologia de modernização, de paz social e de falsas esperanças, fabulação que nem de longe é capaz, ou se mostra disposto a transferir para o mundo real.

Assim, crivado por disfuncionalidades estruturais e institucionais, e por extensão, calçado por práticas omissivas atinentes à lógica de protelar e erodir soluções, o Estado brasileiro corporificaria um claro controle desagregador.

Em sendo assim, seria difícil, tal como ficou explícito nas últimas décadas, que um ministro do meio ambiente faça mais que um mero “pronto-socorro” ambiental.

Mas, o problema parece ser exatamente este: nem pronto-socorro Salles se presta a fazer. Pior: longe de exercer o chamado controle desagregador, o ministro parece determinado em desagregar o controle do Estado, qualquer que seja.

Em larga medida, a narrativa do ministro fornece pistas relativas ao seu prontuário procedimental. A saber, há um claro nexo ideológico no seu discurso, quando, por exemplo, execra a memória de Chico Mendes, por ele restrito ao status de mero “esquerdista” e também, quando busca contrapor-se ao “globalismo”.

Claro está que Chico Mendes era um socialista. Eu mesmo, que nos anos 1980 servi a este homem com o melhor das minhas forças, confirmaria tal notação. Sim, Chico Mendes era esquerdista. Mas e daí?

Recorrendo a uma prédica bíblica, que sabiamente admoesta que os homens serão julgados por seus atos mais do que por sua fé, não se permite, por esta mesma razão, desqualificar a obra, por exemplo, de João Cândido e Afonso Taunay, tão só por terem sido direitistas. Nem a de Chico Mendes por ter sido esquerdista.

No segundo caso, Salles erra novamente pela ideologização das narrativas que endossa. Pautar que a defesa da soberania nacional passa pela desqualificação das matrizes ambientais que hoje constituem um patrimônio do pensamento ético e científico da Humanidade, é uma postura pelo mínimo indigesta.

Certo é que a ordem global tem dado mostras de cansaço, inoperância e injustiças. No prisma ambiental não faltam críticas nem mesmo por parte de autores para lá de engajados na defesa ambiental, quanto à forma com que algumas “preocupações ecológicas” se tornam “mais globais” do que outras.

Em paralelo, note-se que a defesa do ambiente não é e nem nunca foi, um apanágio programático da esquerda. Tanto assim, que o Relatório Limites do Crescimento, desde os anos 1960 uma referência sobre o debate ambiental, foi elaborado por atores do mundo corporativo e não por raivosos militantes das ONGs, que por sinal, sequer existiam nesta época.

Salles parece desconhecer que a defesa do ambiente reúne grupos muito variados, social, politica e ideologicamente. Assim, paralelamente à posição da Amazônia enquanto “patrimônio global”, atente-se que para muitos segmentos, a defesa da majestade deste acervo é uma reivindicação da nacionalidade, e não “do Planeta”.

Neste senso, o viés simplista e acintosamente ideacionado que ensombra o ministro, não lhe permite discernimento ou isenção. Daí que é a incapacidade de Salles, fingida ou não, em decodificar o mundo real que o tornam um irresponsável, e por tabela, indigno dos desafios inerentes à gestão do meio ambiente.


MAURÍCIO WALDMAN é jornalista (MTb 79.183-SP), três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), e autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. Waldman foi colaborador de Chico Mendes, Coordenador do Comitê de Apoio aos Povos da Floresta de São Paulo e elencado no ano de 2003em enquete do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), como um dos trinta ambientalistas históricos do Estado de São Paulo. E-mail: mw@mw.pro.br


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ÁGUA: ESCASSEZ E CONFLITOS NO IMPÉRIO DA SEDE, DE MAURÍCIO WALDMAN
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
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REPERCUSSÃO

ENTREVISTA DE MAURÍCIO WALDMAN COM HERÓDOTO BARBEIRO
Programa Record News - (12:45 minutos), 20-06-2019:

ENTREVISTA ESPECIAL PARA O INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 6-08-2019


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22 de agosto de 2019

ÁGUAS MINERAIS IMPURAS - SÉRIE IMPÉRIO DA SEDE Nº. 1



Um parecer clássico afirma que água boa para beber é pura, insípida, inodora e incolor. Foi assim que no primário, fui instruído sobre o que seria água potável. “É a água da torneira”, arrematava a professora.

O tempo passou, e sinal explícito de que a população perdeu a confiança na água da rede pública, a água mineral tornou-se líquido prioritário para matar a sede. A primeira vez em que eu vi um garrafão de água mineral (de vidro, acompanhado do devido suporte), foi numa empresa onde trabalhava quando jovem. Curioso, investiguei o garrafão e notei um registro no fundo do recipiente: Hecho en Mexico. Isto é: produzido no México.

Na ocasião, não atinava razão plausível para um país fabricar garrafões em série. Anos mais tarde, tomei conhecimento de que passo a passo, os mexicanos puseram a perder suas águas de superfície. Logo, a solução para saciar a sede não teria como dispensar a água mineral, extraída do subsolo.

De lá para cá, a moda pegou e também se alastrou. Hoje atendendo vasta clientela, as garrafinhas plásticas de água engarrafada (mineral, é claro) e garrafões (agora de plástico), tornaram-se onipresentes.

Neste panorama, caberia avaliar se estas transformações foram válidas. Isto porque o argumento central das corporações de água mineral - a pureza insofismável do líquido -, pelo mínimo justificariam três notações básicas.

Primeiro: atente-se que a água na natureza não tem como ser imaculada. Mesmo a água da chuva, contém substâncias incorporadas durante a precipitação, devido ao contato com o ar, poluído pelos humanos ou não.

Portanto, a água “pura, insípida, inodora e incolor”, possui forte apenso laboratorial, não correspondendo ao líquido realmente disponível no meio ambiente, e que em contradição com este axioma, nem por isso deixa de ser potável.

Prova disso, o sucesso das águas minerais, procede por serem líquidos com cores, odores e sabores. Por definição, são águas nobres cujo diferencial é justamente sua impura singularidade. Incensadas e adereçadas de glamour, permite-se compará-las como as melhores safras dos vinhos de Baco.

Segundo: o apelo à pureza das marcas comerciais da indústria de água mineral, cuja existência repousa na comercialização de um produto - a água dita “natural” -, apenas se tornou viável com a poluição desmesurada da massa líquida dos cursos d’água, rechaçadas por sua impureza contaminante e substituídas por líquidos com máculas biologicamente admissíveis, as águas minerais.

No mais, o agigantamento do mercado da água não resultou apenas das demandas objetivas pelo líquido. Em paralelo a estas, investimentos de vulto, com base em acepções imaginárias interpostas à substância, tiveram relevante papel, criando desejos inéditos e formatando um novo universo de consumo: a água mineral “pura”, calçando a demanda que atualmente desfruta.

O terceiro ponto, mais importante e essencial, reporta ao alerta quanto à alegada genuinidade do produto. Tomemos como exemplo a famosa água mineral Perrier, da França, que circulando em 140 países, totalizava em 2013 quase um bilhão de garrafas vendidas.

Note-se que a despeito da imagem de produto natural, esta água é industrialmente manipulada, cuja carbonatação decorre de adição no engarrafamento, assim como sabores incorporados às variedades da marca, também oferecida, desde 2011, em garrafas PET descartáveis. Deste modo, o que é adquirido pelos consumidores é um conceito. Mas não uma água mineral “pura”.

Existem também outros fatores que estão cada vez mais colocando em risco a qualificação das águas minerais. Devido à expansão urbana, as fontes estão cada vez mais próximas das metrópoles, origem de impactos consideráveis para as águas subterrâneas.

Daí que, no parecer de muitos especialistas, as águas minerais estão, em termos de confiabilidade, se tornando análogas à água da rede pública, pelo que, impõe-se um desafio óbvio: tornar novamente naturais o conjunto de todas as águas, inclusive, compreensivelmente, a que sai das torneiras.

Maurício Waldman é jornalista (MTb 79.183-SP), antropólogo, professor universitário e pesquisador acadêmico. Três vezes Pós-Doutor (UNICAMP, USP e PNPD-CAPES), Waldman é autor de 18 livros, 22 ebooks e 700 artigos, papers e relatórios de consultoria. E-mail: mw@mw.pro.br



SAIBA MAIS SOBRE A CRISE HÍDRICA E O IMPÉRIO DA SEDE

Água: Escassez e Conflitos no Império da Sede, de Maurício Waldman
Lançamento Editora Kotev (2019 KOTEV©)
ISBN 1230003255148, com 506.193 Caracteres e 65 Figuras
Acesso Livre na Internet em Formato PDF: 


Programa Record News
Entrevista de Maurício Waldman com Heródoto Barbeiro, (12:45 minutos), 20-06-2019:

Entrevista Especial para o Instituto Humanitas Unisinos, 6-08-2019


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