segunda-feira, 26 de setembro de 2016

POR QUE HARVARD NÃO ESTÁ NO BRASIL?






A questão da disparidade dos caminhos seguidos pelos Estados Unidos da América e pelo Brasil já rendeu copiosos rios de tinta.

Sociólogos, antropólogos, historiadores, geógrafos e cientistas políticos já se debruçaram sobre o tema, explorando diversos pontos relativos a esta questão.

Todavia, dentre muitos quesitos, o desempenho acadêmico dos dois países é uma das mostras mais seguras do quanto os dois países - ambos originários de uma realidade colonial que embora específica não deixou de ser marcada pelo mandonismo e arbitrariedade metropolitana - chegaram a pontos totalmente diversos no campo científico e intelectual.

A comprovar esta disparidade, o ranking dos laureados pelo Prêmio Nobel fala por si mesmo.

Para conferir melhor: até o dia de hoje, 26 de Setembro de 2016, a famosa e prestigiadíssima Harvard University tem 47 dos seus graduados dentre os laureados com o Prêmio Nobel.

Este número é mais do que a maior parte dos países do mundo conseguiram. Para apimentar esta discussão, retenha-se que Harvard é uma universidade privada, um autêntico anátema para ampla maioria da intelectualidade politicamente engajada do país.

Aliás, quando as nações ostentam um, dois ou três agraciados com esta cobiçada comenda, o contentamento é geral. Justificadamente, os premiados se tornam ícones nos países nos quais atuam. Afinal, trata-se apenas e tão somente do Prêmio Nobel, a mais alta honraria científica do Planeta.

Contudo, saliente-se que o Brasil não tem nenhum Prêmio Nobel.

Ponderando a partir deste prisma, Harvard teria 47 vezes mais laureados que o Brasil caso nosso país tivesse ao menos um Prêmio Nobel.

Acontece que o número de laureados brasileiros com o Nobel é zero. E quarenta e sete vezes zero é zero. E zero é zero: nada, nicas, coisa nenhuma.

Certo é que aparte notórias exceções, a pequena fração de trabalhos científicos brasileiros conotados por reconhecimento internacional possui relação umbilical com o passado histórico, a começar pelo modelo de colonização aqui implantado, ao qual se somaram as vicissitudes e os malfeitos da história imperial e republicana.

Por outro lado, as antigas Treze Colônias, o espaço núcleo dos Estados Unidos da atualidade, numa clara linha divisória na comparação com o mundo latino-americano, formavam um espaço dinâmico regrado por um estado de espírito - ethos no jargão antropológico - absolutamente diferenciado, matricial para a consolidação dos Estados Unidos enquanto potência científica.

Neste exato sentido, anote-se que os EUA se caracterizaram, desde o início da colonização, pela abertura para com o conhecimento científico. Na América do Norte, a pesquisa e a curiosidade intelectual estiveram livres do engessamento ideológico, estamental, político e religioso que imperavam no velho continente.

Para certificar esta premissa, basta assinalar que Harvard University foi fundada praticamente nos primeiros momentos da colonização. A fundação de Harvard acontece em 1636 na cidade de Boston, no Massachusetts. Isto é: quase 140 anos antes da autodeterminação nacional.

Deste modo, para além da emblemática atuação do cientista estadunidense Benjamim Franklin (Figura 1), numerosa galeria de inventores, sábios e homens de ciência se destacaram em praticamente todos os campos do saber, da botânica à engenharia, da filosofia à química, da matemática à geografia.


FIGURA 1 - Benjamim Franklin (1706-1790), foi a mais notável personalidade científica dos Estados Unidos no período colonial. Distinguiu-se particularmente no campo da eletricidade, pesquisas que lhe granjearam reputação internacional. Além de ser eleito membro da famosa Royal Society, foi laureado em 1753 com a medalha Copley. Como reconhecimento das suas descobertas, seu sobrenome passou a designar uma medida de carga elétrica. Franklin demonstrou que os trovões são um fenômeno elétrico, noção básica para seu principal invento, o pára-raios. Foi também criador do franklin stove - um aquecedor a lenha muito popular nos EUA - e também das lentes bifocais.


Numa mostra sintética, é possível citar Eli Whitney, Alexander Garden, Thomas Godfrey, David Rittenhouse, Sybbila Masters, James Logan, Thomas Brattle, Joseph Priestley, John Winthrops, etc., expoentes de notória geração de saber sistematizado, que antecedeu em longa data a autodeterminação política.

Seria imperioso anotar, o sucesso dos Estados Unidos em diversos campos - e não só do saber científico - foi respaldado pelo claro incentivo ao conhecimento, ao qual se somou o arrojado empreendedorismo dos colonos anglo-americanos nos afazeres da economia.

Não há dúvida alguma que a o desempenho questionável da universidade brasileira na comparação com os Estados Unidos - seja o polo acadêmico público ou o privado - não poderia ser esgotada unicamente neste post. O problema é complexo e profundo, não admitindo meras simplificações.

Mas seria inescapável uma crítica ao negacionismo e à empáfia da universidade brasileira.

Por exemplo, a imprensa nacional entra em êxtase quando a USP figura entre as cem ou duzentas melhores universidades globais e repetidamente, é repisado o argumento de que esta universidade é a melhor da América Latina.

Todavia: e daí? Entre as cem melhores? E isto em vista de que se posiciona na rabeira desta centena? Por que não entre as vinte ou dez melhores?

A melhor da América Latina? Novamente: e daí? Na verdade isto apenas significa pontuar que a USP se destaca num conjunto de universidades cuja produção científica, caso desaparecesse, não redundaria em nenhum vazio irrecuperável para a ciência mundial.

E indo direto ao ponto: Onde está o Prêmio Nobel da USP?

Em tempo: além de não existir termo de comparação do Brasil com os Estados Unidos no quesito Prêmio Nobel, sublinhe-se que mesmo no campo do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), não somos páreo para nenhum dos parceiros do bloco.

A Rússia teve 27 dos seus filhos laureados com o Nobel; A Índia soma 11 laureados; A China arrematou 12 Prêmios Nobel. A África do Sul, que sendo um país africano termina desqualificada por correntes de opinião preconceituosas e racistas, amealhou nada menos que 11 Prêmios Nobel.

Dito de outro modo: a África do Sul teria onze vezes mais Prêmios Nobel do que o Brasil, caso, é claro, se o país tivesse ao menos um Nobel.

E o fino da bossa é saber que os argentinos, "los hermanos", colecionaram cinco Prêmios Nobel. A Costa Rica, um ganhador. Trinidad-Tobago, também tem um. A pobre Guatemala, dois. O folclorizado México, três. A diminuta Santa Lúcia, dois. Até mesmo a impagável Venezuela ostenta um sábio ganhador do Prêmio Nobel.

Estas conquistas parecem pequenas diante de 356 norte-americanos, 118 britânicos, 103 alemães, 67 franceses, 31 suecos, 25 canadenses, 24 japoneses, 21 austríacos e 20 italianos honrados com o Nobel. Porém muitíssimo se lembrarmos do ranking zero do Brasil.

Certamente Harvard expressa uma realidade muito diferente da nossa e assim, os termos de numéricos de comparação podem não ser aqueles dotados de força argumentativa mais consistente.

Mas, é inegável o atraso da academia brasileira. Aparte alunos e professores virtuosos que encontramos em qualquer sala de aula, o gap do país é tremendo.

Numa comparação entre Harvad e a universidade brasileira, considere-se que a Escola Universitária Livre de Manaus, a instituição de ensino superior mais antiga do Brasil, foi fundada apenas em 1909. Ou seja: vinte anos após a independência.

Sendo este um problema - tal como consignado, amplo e complexo - este post deixa então o registro de somente uma ponderação, atinente à mistificação com a qual muitos pretendem driblar este constrangimento.

O geógrafo brasileiro Milton Santos (aliás, Prêmio Vautrin Lud, o mais proeminente da geografia mundial, considerado o Nobel da especialidade), advertiu em vários pontos da sua majestosa obra a tendência perversa do mascaramento das contradições ao longo do processo de construção da formação social e espacial brasileira.

Este fato é notado quando a presidente cassada Dilma Rousseff argumentava, por exemplo, que o país iria quadruplicar o número de doutorandos; é evidente nas deficiências cabais que podem ser encontradas nos sonolentos cursos de pós-graduação; faz presença também, na própria narrativa das universidades públicas e privadas, que passaram a abusar do adjetivo “científico”.

Nos últimos anos, tudo no universo acadêmico passou a ser rotulado como "científico": seminários científicos, textos científicos, argumentação científica, postura científica, discurso científico, etc. Isto devido ao simples fato de que na realidade, não estamos produzindo ciência na cadência e na excelência que o mundo global exige.

Isto posto, não é com fantasias numéricas, com departamentos despreparados e rótulos abduzidos de relação com o real que o problema da ciência brasileira será solucionado.

Um elemento primordial da mentalidade yankee - ou do seu ethos - é o seu senso de praticidade, de relação objetiva com a realidade, da valorização do estudo, da meritocracia e da dedicação como um dinâmico modus operandi primordial para uma vigorosa vida acadêmica.

Algo que tem estado notoriamente ausente nas diretrizes adotadas para vitaminar o progresso da ciência brasileira.

Falha que no final das contas, explica porque Harvard não está no Brasil.


Esta e outras notas histórico-culturais estão comentadas e indexadas à obra GUERRA REVOLUCIONÁRIA AMERICANA (Maurício Waldman, Editora Kotev, Julho de 2016).



SAIBA MAIS

Portal da Livraria Cultura (São Paulo, Brasil):
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-guerra-revolucionaria-americana-102629158

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https://store.kobobooks.com/en-us/ebook/a-guerra-revolucionaria-americana

Librerie La Feltrinelli (Milano, Italia):
http://www.lafeltrinelli.it/ebook/mauricio-waldman/a-guerra-revolucionaria-americana/1230001215205


Conheça outros títulos de Maurício Waldman na forma de e-books:


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MAURÍCIO WALDMAN é jornalista, antropólogo, pesquisador, editor, consultor ambiental e professor universitário. Autor de 16 livros e de mais de 600 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015).

MAIS INFORMAÇÃO:

Portal do Professor Maurício Waldman -  www.mw.pro.br 
Currículo Plataforma Lattes-CNPq - http://lattes.cnpq.br/3749636915642474 
Verbete edição inglesa da Wikipédia -  http://en.wikipedia.org/wiki/Mauricio_Waldman 
Contato E-Mail: mw@mw.pro.br 


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